quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pelo Buraco da Fechadura


Essas pessoas difíceis. Melhor, impossíveis. De se decifrar nos olhos e nas palavras. Estas que, de tão melindrosamente introspectivas, forjam uma personalidade misteriosa. Seres sombrios que, disfarçados em falsa timidez, soam até bonitinhos dissimulando por aí, ruborizados.

São mais comuns do que se imagina. Seres dificultosos da interatividade humana. Eu! Claro, sempre eu. Um bloco de sentimentos e sentidos obscurecidos pela insegurança de uma instabilidade simples: as relações. Porque não?

Me calo!

Nas decisões mais cotidianas que adoto no dia-a-dia. Poucas palavras. As respostas que afetam as pessoas. As respostas que deveriam ter existido para, justamente, afetar as pessoas. Os sentimentos e a total frieza aos conflitos alheios. E ainda exijo atenção!

Mas não só eu. A fatia mais gorda dos que integram meu círculo social. Qualquer círculo social. Nós e nossos problemas humanos. Seres racionais. Os homos que sapiensam para, depois, complicarem tudo. E nesse diálogo íntimo com nossa confusa consciência, cedemos à frustração.

Por não falar o que era preciso ser dito. Por dizer o que era impreciso, em prol do equilíbrio da relação. Cedemos. Calados. Mudos de personalidade. Essa indefectível necessidade de proteger os próprios flancos dos golpes da vulnerabilidade.

Sou eu vulnerável, dentro de mim. Amplamente vulnerável e, muitas vezes, desacreditoso do amor próprio. Mas não aos outros. Sou “misterioso” e, se puderem acreditar, “interessante” aos olhos que me olham com zelo. Mal me conhecem...

Há quem, eventualmente, me descubra da forma essencial: Moralmente franzino e psicologicamente débil. Irreversível, se me apresentar assim. São anos em um processo lento e enfadonho de confiança exterior, para romper o invólucro cascudo da minha autodefesa. De misterioso a sensível, elevado à quinta potência.

Mas está bem, há quem, eventualmente, me ature dessa forma. Bons amigos! Aqueles que olham dentro do buraco da minha fechadura e, indiscretamente, enxergam coisas que, muitas vezes, nem eu sou capaz de ver. Um talento. E ainda com isso, ao olharem dentro do meu íntimo mais particular, me querem. Um mistério.

Um comentário:

juliabertinobr disse...

Adorei esse texto, realmente um auto-retrato! mas nao apenas um desabafo pessoal (se assim me permite), tem muito a dizer sobre o proprio ser humano e sobre as relaçoes humanas...