sexta-feira, 9 de abril de 2010

Botões Pretos


Num súbito, naquela fração milionésima de segundo que garante o semi-desligamento do corpo na total paralisia noturna, enquanto os olhos se trancam em sonhos. Nesse instante, milhares de vidas chacoalharam a quase nove graus, segundo Richter. Vidas purgatórias que, como se já não fosse o suficiente, surpreenderam-se às avessas no pico da madrugada escura e desprovida de lua. Sequer a lua abençoava o local naquela noite.

Era o dia do juízo e a natureza – vassala divina – arrebataria um chumaço de almas. Boas e más. Todas as sobressalentes, precisamente. As dividiria em santas e profanas. Joio e trigo. No fim do tremor, cem mil corpos se distribuíam no solo, pesados, macerados, vinte e um gramas a menos.

Para os incólumes, a missão desconfortável do resgate. Conhecidos e desconhecidos. Loteria à vida. Seres humanos. Das paredes e telhados sobrepostos ouviam-se, aos montes, gritos abafados e gemidos sem força ou origem. Suspiros avulsos que desafiavam o capricho sádico dos céus. Almas atrasadas, resistentes à corte celestial.

Esperança, que podia ser apenas um sentimento iminente, era o nome da garotinha robusta e de ossos fortes, enfiada sob a parte mais inferior do mais profundo amontoado de entulhos. Ela não pôde despertar a tempo de fugir do seu quarto, no primeiro andar daquele prédio de onze andares. Tinha o sono pesado.

Acordou com o quarto tremendo e a vida sacudindo. Conseguiu abraçar Fido, seu pequeno coala de pelúcia, e nada mais. Quando se deu conta da condição à qual havia sido brutalmente exposta, toneladas de concreto a prendiam, sufocante, numa cela centimétrica.

Primeiro, assustada, achou conveniente gritar, mas, sequer ouvia o próprio desespero. Em seguida, pensativa, cogitou chorar as lágrimas cortantes das crianças, mas entendeu imediatamente a ineficácia do gesto naquela situação.

O mundo centrou-se então em Esperança, o céu todo parou para admirar as ações que seis anos de vida poderiam experiênciar. Não houve mais tremores enquanto durou aquela interação indireta.

Ainda pensativa, a menina encontrou Fido sufocado em seus braços e, maternalmente, o desafogou acariciando o dorso. Suspirou aliviada pela companhia, era responsável por aquele bichinho inanimado, a mãe.

Refletiu confusa sobre os coalas e não soube o porquê do afeto a um animal tão distante da sua realidade, geograficamente. Não sabia nada de “globalização”, mas, certamente pensou nela, à sua maneira, com seu intelecto pré-escolar. Admitiu, emocionalmente, que não se escolhe o amor, seja ele impulsionado pelo mercado ou atribuído naturalmente. Amava Fido e dividiria com ele, incondicionalmente, os dias mais apertados da sua breve existência.

O tempo corria no ritmo dos respingos sujos que acertavam invariavelmente a cabeça de Esperança. Serviu de alimento líquido. Pensou e entendeu não ter grandes memórias ou qualquer legado que a fizesse revoltar-se contra a morte. Tinha apenas seis anos e Fido. Sua família certamente fugira do desabamento. Sorte deles. Começou a aceitar o destino.

Sempre que as gotas escasseavam, Esperança fitava Fido que, com aquele olhar estático de botões pretos, entregava-se à fome dela, permitindo que o devorasse. Mas ela preferia a morte lenta e ácida a exterminar seu fiel companheiro. O abraçava, ainda mais materna.

Continuaram nessa oscilação alimentar. Ora com as gotas, ora com a fome. Todos os dias eram escuros, não se sabe quantas luas ou quantos sóis atravessaram suas cabeças, mas, de um dia em diante, as gotas secaram de vez e secou tudo em volta. As pedras secaram, a boca de Esperança secou, sua garganta. Só restavam os dois com toda aquela aridez. E a fome.

Mais tempo ainda até que as escavadeiras e o sol puderam encontrar aqueles corpinhos intactos. Meses. E quando a luz ocupou aquele mísero espaço, a imagem era de Fido abraçando zelosamente Esperança, sem vida.

Dos grandes botões pretos emergiam espessas gotas que escorriam pelos sintéticos pelos e atingiam a face da menina, invadindo sua boca com aquele líquido puro e purificante. Após o longo silêncio que se instaurou entre as máquinas e a equipe de resgate, Esperança abriu os olhos e protegeu-se da luz.

3 comentários:

Ana Paula disse...

Eu sempre achei puro sensacionalismo e uma exploração brutal à que alguns jornalistas retratam a desgraça alheia, mas vc captou a desespero e a insegurança com tanto sentimento, com tal motivação que, no fim tudo se ajeita, e bem fiquei realmente comovida pensando em quantas "Esperanças" podem ter sofrido assim...Adorei...de coração

Anônimo disse...

É engracado quando alguem escreve alguma coisa né? Parece a Bíblia...cada um interpreta de uma maneira, cada um entende uma coisa de acordo com o que quer, com o que lhe convém, ou mesmo com o sentimento do momento. O Rubem Alves disse uma vez que um dia ele escreveu sobre um pássaro engaiolado que sempre voltava e tals...e ele se remetia as viagens que ele fazia mas sempre voltava para ver a filha dele. Alguns entenderam que era sobre o amor...
Pois é. Li seu texto sobre tres perspectivas...Importante o papel de um escritor nao?
Eu e esse meu momento...
Voce e essa sua escrita deliciosa!

Anônimo disse...

Cara, FANTÁSTICO! Vc sabe que sou fã n° 1 dos seus textos. Vai inspirar muito o meu dia.
Grande abraço. Eron