sábado, 21 de maio de 2011

Definhando

                                                  Arte: Vincent Van Gogh

Acordei pensando na morte. Mas não, nada de último suspiro. Leito final, pele enrugada e conselho sábio à juventude. Apenas na morte invisível do dia-a-dia. Aquela que se aloja no nosso organismo logo que deixamos o ventre e que vai comendo nosso corpo aos poucos.

Que se alimenta a microgramas da nossa estrutura bio. O colágeno da pele, o cálcio dos ossos. Os hormônios, a melanina. Tão devagar que nem percebemos o cabelo perdendo a cor, se não os próprios fios. Tudo o que começa a doer. As juntas. O corpo arqueado que se arrasta.

A cabeça sã. Algumas memórias oferecidas em troca de um pouco mais de saúde corpórea. As pessoas que esqueço pelo caminho, as glórias infantis que desaparecem fugazes do meu subconsciente, invariavelmente, para que eu possa subir pelo menos mais um lance de escada.

As debilidades dos meus vinte e tantos anos. Toda a vitalidade que tinha aos quinze e que não volta. As debilidades dos trinta e tantos, a vitalidade dos vinte e cinco que não volta. As debilidades dos cinquenta, a vitalidade dos quarenta que não volta. Nada, na vida, volta.

Morremos um pouco todos os dias, quando dormimos. Morremos de vez, se não. Me lembro que ontem tinha mais saúde que hoje, ao acordar. Tinha um dia a mais de vida. E lembro que meses atrás eu jogava bola, hoje a droga do meu joelho podre não permite. Vai melhorar?

Não vai! Vou, eventualmente, aprender a conviver com a dor e jogar manco, mais alguns anos. Mas é justamente essa adaptação soturna às intempéries da vida que me apunhala as costas. Essa condição acomodada de aceitar as lesões, a calvície, a demência e, a final, a morte.

Um instante! Falando assim pareço em crise com a velhice (Peter Pan?). Mas não, só acho que Chaplin é que estava certo. Deveríamos nascer velho e morrer bebê, no melhor estilo B. Button. Mas quanto mais estímulos recebemos da vida, menos condições físicas nós temos.

Tudo graças ao sadismo divino de brincar com nossos desejos e anseios. De nos oferecer lindas trilhas a praias desertas e a esclerose múltipla. Vôos de asa delta e o ataque cardíaco. Mulheres exuberantes e a impotência sexual. A vivência acaba com o prazer de viver.

Amanhã pensarei menos nisso, talvez até esqueça. Alzheimer? Acho apenas que acordei para a irreversível e particular contagem regressiva da vida. Uma ampulheta monumental que, a esta altura, suspende bilhões de grãos no andar superior, mas, os despencados morreram na queda.

2 comentários:

Ana Paula disse...

Valeu Fá, isso resume tudo..

Tati disse...

Pois é! O valor da vida.