segunda-feira, 4 de abril de 2011

Saudações à Broadway, Marujo


Tive finalmente uma folga. Depois de meses no mar, em treinamento, quase doze horas de recesso para recobrar os sentidos e rememorar momentos de sanidade em terra firme. As águas salgadas e inesgotáveis do Atlântico podem acabar com a cabeça de qualquer homem.

Deixei o porto sozinho, em direção ao bar mais afastado e mais cheio de prostitutas que encontrasse pelo caminho. Queria apenas distância do mar, do navio e daquela tripulação suja e alienada. Eram mais de cem homens, todos sedentos por sangue inimigo. Eu, sem escolha.

Caí na marinha para não apodrecer numa penitenciária agrícola. Eu era um agricultor dos mais preguiçosos. Quando descobri que podia fazer grana com as maçãs do senhorio, tratei de desviá-las muito discretamente, até ser descoberto. Fui entregue à polícia aos dezoito anos.

Tive duas opções muito claras: Cadeia ou marinha. O país se preparava para a guerra e precisavam de recrutas, o maior número possível. Na semana seguinte lá estava eu, de uniforme, em posição de sentido, jurando a bandeira. Dissimulei abraçar a causa, e embarquei.

Agora, finalmente, caminhava em direção à algazarra dos bares portuários. Não tirei o uniforme para não perder tempo e, naturalmente, por conhecer o efeito que os trajes marítimos causam nas mulheres. E Deus sabe o quanto eu precisava de uma mulher, ou duas.

Vaguei com meu cubano queimando na boca, e encontrei uma biboca silenciosa à meia-luz. Já era a última esquina do porto. Se não tivessem álcool ali, teriam que me dizer onde conseguir. Empurrei a portinhola e após o longo rangido, havia uns trinta pares de olhos me encarando.

Os saudei aliviado porque, sim, era exatamente o que procurava, um bar sujo e barato, repleto de mulheres dispostas a se deitar comigo sem nenhum galanteio maior que umas notas de dólar e, talvez, um drink. De repente, de lugar nenhum e em toda a parte, subiu o tom do jazz:

“Bem-vindo a birosca do Araújo, marujo.” – As pessoas todas levantaram dos seus acentos e se reuniam em passos organizadíssimos. “Venha e se entregue. Extravase, descarregue.” – Cantavam e dançavam alinhados, olhando para mim com sorrisos assustadoramente felizes.

“Bem-vindo a sua casa, somos todos irmãos. Abra suas asas, role pelo chão.” – Até aí um convite honesto. “Beba, se embebeda, está em terra e não em guerra.” – Estavam certos. “Amanhã é outro dia e você deve lutar, entupa-se de álcool até desmaiar.” – Ali eu já dançava.

A música cessou da mesma forma que surgiu, e cada um retomou seu lugar. Silêncio, apenas os ruídos dos tacos nas bolas de bilhar, e copos tilintando involuntariamente. Agora já não pareciam tão felizes ou animados. Só bêbados. Cheguei no balcão e pedi um Bourbon. Duplo.

Admirava a prateleira de bebidas e só pensava em quantos porres aquela parede poderia me fornecer até o fim da vida. Provavelmente todos. Então, um som sinfônico, como um bando de passarinhos, irrompeu meu devaneio deliciosamente. Encontrei, enfim o que queria ter:

“Marinheiro, procurando companhia? Eu sou a Maria.” – Virei para ela, sedento e babão, mas, antes que pudesse responder, uma fila de mulheres brotou de trás dela, melodiosamente se identificando. Queria entender de onde diabos vinha aquele blues, mas optei pelo brinde:

“Querendo carinho? Sou Candy, seu docinho”; “Atrás de uma dama? Eu sou a Suzanna”; “Sou a perdição, prazer, Sue Furacão”; “Procurando problema? É o meu sobrenome, me chamo Helena”; “Ou uma puta? Eu sou a Sandy!” – Sem rima? “Relaxa, é nova aqui, a minha prima!”.

Rimos e aplaudimos todos juntos. Subitamente, mais uma vez, evaporou no ar a música e o vazio melancólico redominou o bar. Na quarta ou quinta dose, levei Maria e Sue para os fundos. Não tinham o mesmo entusiasmo do ato anterior. Foi uma foda bem burocrática, aliás.

Comecei a ficar deprimido. O ambiente todo parecia oco, em silêncio. Mas me dispersou, quando, do canto escuro do bar, um velho vaqueiro entoou glórias e fracassos pessoais. Um country triste, mas bonito. Ninguém cantava, só estalávamos os dedos, lentos e cadentes.

A música parou sem nem me confundir mais, já estava inserido naquela maluquice musical de corpo, alma e álcool. Apreciava e participava. Mas, antes da tristeza voltar a nos assombrar, dois bêbados iniciaram o próximo ato, reivindicando Sandy que, assustada, rodopiava no meio.

Cada um a puxava por um braço e enquanto o rockabilly ficava mais e mais alto, eles despejavam seus argumentos com rimas fortes e precisas. Helena pausou a cena se atirando no meio da confusão: “Ei, seus otários, saiam de cima. Mato vocês, se ferirem minha prima!”.

No instante seguinte a música recomeçou e logo o bar todo estava envolvido. Mesas voavam, garrafas quebravam nas cabeças, mulheres rodopiavam e saltavam por cima e por baixo dos homens. Não demorou até sermos expulsos. Rindo, dançando, quebrando e cantando.

A farra continuou do lado fora, casais repetiam os passos um do outro, todos rimavam as maravilhas da noite e do álcool. Uns mais exaltados rodavam nos postes e davam piruetas. Em seguida as luzes se apagaram em fade out, e cada bêbado e cada puta foi tomando seu rumo para casa.

Começava a amanhecer e o Destroier berrava sua buzina ruidosa. Os marinheiros se aglomeravam na prancha para embarcar. Cada um de nós saudou o comandante e desapareceu no convés, rumo à guerra. Eu tinha apenas vinte anos, e acreditava em fantasias.

Nenhum comentário: