quinta-feira, 27 de maio de 2010

Acorde Real



Eram cordas afiadas feito lâminas de um fino fio de navalha. Esticadas e centimétricamente enfileiradas em riste, prontas para o ataque. Preparadas para golpes mortais embora, suas investidas, não fossem mais que a pura composição de notas limpas e harmoniosas. E resultavam nas mais doces melodias.

A executava com maestria o músico real. Satisfatoriamente calejado pelo martelar inesgotável das trinta e seis cordas desproporcionais do instrumento. Dono de uma leveza artesã, com aquelas mãos rudes. O único, entre aqueles muros, capaz de amansar o patrono. Era ele, afinal, o pupilo real. O artista.

O rei, devoto das boas trovas e canções, emocionava-se facilmente com as notas produzidas por aquelas cordas e aquelas mãos. Em especial nos desfechos em tons menores. Era apaixonado pela melancolia nostálgica. E pelo bucolismo tão próprio do seu reinado.

E os tons menores traziam recordações precoces de um tempo glorioso, do período de expansão territorial, da época em que acompanhava o pai nas aventuras homéricas pelos feudos e condados que um dia seriam seus.

O músico, incansável, tocava enquanto durava o transe memorial do rei. Emanoela, a harpa, proprietária e progenitora da melodia que penetrava os tímpanos reais e atingia abruptamente o coração do patriarca, assistia desgostosa à glória entregue ao dedilhar parasitário do músico.

De tão mesquinha, forçava enrijecer-se a fim de desafinar suas notas àquelas mãos mágicas. Mas sua birra continha-se na leveza de dedos tão delicados que, verdadeiramente, acariciavam-na como alguém que brinca com os fios de cabelo da mulher amada.

Por isso, e nada mais além disso, concedia a honra a tão distinto homem, o artista. Não que concordasse com os louros injustos dessa fama usurpada, mas concedia. Entretanto, o pupilo real, já era músico há muito. Muito antes de ser pupilo. Antes até da cerimônia de entrega da coroa.

Então, numa noite como outra qualquer, a natureza tratou de levá-lo. Sem dores. Apenas adormeceu naquela que acabou se tornando a noite da sua última apresentação, e não voltou a acordar. A notícia correu pela manhã, desolando o rei e afligindo a corte. Algumas flores murcharam, por compaixão.

Emanoela, por ser quem era, não se abalou. Respeitosa, conservou-se em silêncio enquanto durou o luto real. Por outro lado reconhecia a iminência do que seria, enfim, o reconhecimento por tantos acordes precisos. Protagonizaria as sonatas reais. Mérito tardio, mas justo.

Algum tempo se passou até que as coisas voltassem a reocupar seus lugares. Antes disso, o silêncio triste e cadavérico assumiu a coroa por uma eternidade naquele castelo e, nem o mais irônico dos trovadores, previu que era tarefa exclusiva do músico espantar a tristeza daquele lugar.

A harpa, já angustiada, implorava estática pela glória. Arriscava, de dentro do seu próprio corpo, um arranjo qualquer. Sentia-se estranha, como se incompleta e muda. Atada das próprias virtudes.

O silêncio real rompeu-se apenas quando importaram um jovem músico da megalópole romana. Promissor. Emanoela suspirou quando desabrochou do casco, enfim, após tanto tempo. Mas resmungou em desafinação quando percebeu o papel coadjuvante que iria desempenhar mais uma vez.

Por capricho dos deuses, o promissor artista era um fracasso e fora decapitado semanas depois. Mais alguns vieram e tiveram suas cabeças igualmente decepadas. Outros conseguiram fugir aos berros, apenas sem as mãos.

As melodias há muito não contagiavam aquele palácio e Emanoela caprichava em conquistar lentamente sua exclusividade, garantindo o despacho funesto a todos os pretensos artistas.

Ora desafinava, ora embolava notas e constantemente rompia cordas durante os acordes mais simples.

Orgulhou-se do seu êxito homicida por mais três ou quatro músicos. Dissimulou um apreço saudoso ao primeiro deles. Ninguém a tocou, antes ou depois, como aquelas mãos tocavam. Estava carente e começou a compreender a unidade que existia entre as mãos e as cordas. Instrumento e músico eram um só.

Quando aceitou a nova personalidade, solidária, ansiou pela chegada do novo artista, que veio. Jovem e talentoso. Centrado, passou por ela sem percebê-la, cumprimentou o envelhecido rei e voltou alguns passos. Na volta, tomou Emanoela nas mãos – arrepiada – e afastou-a para o lado, abrindo passagem para que entrasse triunfal o onipotente cravo com teclas de marfim.

2 comentários:

TatiBasso disse...

Gostei

Ana Paula disse...

Como é simples perceber oq a arrogância e o egoísmo nos causa!Lições valiosas essas suas...A Arrogãncia é quase sempre um caminho sem volta pra solidão,e não há um só ser no mundo capaz de viver sozinho,por pior que sejam seus inimigos, são eles que nos fortalessem!E sua queda então!ainda mais magestrosa!Admitir um erro é o melhor caminho à redenção...ou as vezes um pouco tarde rs, Adorei!!