sexta-feira, 21 de maio de 2010

Campanha de Desintoxicação




Por conta da espécie que confina minha alma, coleciono vícios. Três deles mais latentes: o primeiro imoral, o segundo ilegal e o outro, banal; mas chamarei involuntário. Não são maiores nem menores que os vícios dos outros. Mas estes são meus.

Não os evidencio porque, obviamente, me constrangem. O involuntário nem tanto, pois, “toczinho” comum. Já para o imoral e o ilegal prefiro a forca a descrevê-los com todas as letras.

De qualquer maneira trato de expô-los veladamente aqui, em público, na tentativa de esconjurá-los da minha rotina simultaneamente. Sim, todos os três de uma só vez. Campanha que nasce tendendo ao fracasso, considerando experiências anteriores.

Boa parte das minhas investidas até hoje, buscou sanar cada um dos vícios isolando-os individualmente, para que eu me concentrasse em sua total erradicação. O que acontecia, afinal, era o exacerbado consumo de qualquer um dos outros dois. Especialmente o involuntário, sempre menosprezado. Exercício à ansiedade.

Dessa vez, a empreitada sugere a dedicação absoluta. Isso significa ocupar meu ócio com outra coisa que não o desperdício moral e social das atividades escusas às quais venho me dedicando. Sem mencionar todo o tempo consumido.

Por isso travei um pacto comigo mesmo, no 1º de maio de 2010 (dia simbólico), de jamais repetir uma única vez nenhum dos três tormentos psicopatológicos da minha vida. Psico, pois são inconscientes e alienantes; patológicos porque são mais fortes que eu. E me ferem.

Bem, da data em diante, é válido mencionar que dois desses vícios foram fáceis no primeiro dia. Concentração maior no involuntário. É que crise de abstinência surge com mais tempo, já a ansiedade é imediata!

E ainda, pela perspectiva indeterminada da cessação dos vícios, a ansiedade é total. Por isso, logo perdi o controle do involuntário, na primeira oportunidade. Me dei conta já com a mão na boca. Aliás, declarações metafóricas à parte, este eu posso sim declarar: Rôo as unhas! E com uma compulsão de me tirar do ar.

Foi assim que passei os dias subsequentes: Enfrentando os dois primeiros vícios, consumindo o terceiro. Eis minha indiscreta compensação. Honestamente, pareceu funcionar. Até que sucumbi ao ilegal. Pouco menos de uma semana depois do início da campanha. Delinquente...

Horas depois, recaí no imoral. Mentira! Minutos depois, em seguida. A campanha, “natifalida”, tinha perdido o propósito. Eu estava convencido disso. E derrotado, fisicamente. Sem cruzar sequer um final de semana “limpo”, já tinha me poluído novamente.

E hoje, 21 de maio de 2010, com menos de um mês, já sucumbi e retomei a campanha outras duas vezes. Estou no meio dela, aliás. Quatro dias inteiros livre dos vícios. Dois deles. Nada é tão pleno assim nessa crônica desvirtuosa.

Mas, pelo satisfatório e pelo incompetente, encerro escrevendo devagar, uma tecla de cada vez, só a mão esquerda. Habilidade adquirida com esmero, para roer a ansiedade saborosamente, dedo por dedo.

Vício invencível! Antes fosse só ele, vício público, declarado. Esconjurado ainda que encalacrado a mim, como o pecado original ou a dívida externa. Maldição transcendental, muito maior que minha pequeneza humana.

Por outro lado resisto aos outros dois. Bravamente! Resisto em aceitá-los e também em abnegá-los. E sigo administrando, com os dedos superficialmente dilacerados, enquanto não descubro o meio de aceitar, desculpado, algumas das minhas fraquezas.

5 comentários:

Tatiana disse...

Tenho alguns palpites sobre os dois ocultos. Posso falar?
Rá!

Fabiano Malta disse...

Palpite? Palpite uma ova! rs

Anônimo disse...

CLAP CLAP CLAP (estou fazendo isso em pé)! Eron

Marcela disse...

ai curiosidade!!!

Slope disse...

O imoral não me interessa... mas o ilegal... me arruma algum!!