domingo, 28 de março de 2010

Domingo

                                      Arte: David Alfaro Siqueiros

Não é das situações mais fáceis, não mesmo. Tampouco das mais difíceis, mas vá lá, é levável. Madrugada de domingo é situação delicada. Melancólica e inspiradora. Tendenciosa. A inspiração que descamba para a melancolia, muitas vezes. Melancolia, aliás, parece coisa ruim embora, não no meu vocabulário.

Sou mesmo sentimentalmente hipocondríaco. Sofro horrores, calado, sozinho. Rolo no chão e coço a barriga de dores existenciais. Especialmente quando os ponteiros do relógio apontam para o domingo, meia noite em diante. Mas é de dor suportável, “fenixianina”, da que dá vontade de sucumbir às cinzas, renascer e superar. Dor poética, Shakespeare.

Mas, dissimulado que sou, embrenho-me numa efusiva alegria forjada que só as despretensiosas noites de sábado são capazes de fornecer. Madrugada de domingo é, para todos, noite de sábado. Efeito placebo. Às vezes emplaco discussões metafísicas madrugada afora e acabo dispensando qualquer possibilidade mais erótica, nem me arrependo.

Depois me arrependo. Quando é que o erotismo está abaixo da metafísica na escala masculina? Frouxo! Mas do diálogo não me arrependo mesmo, me constrói. Aí eu durmo, meus olhos me dormem. Ficaria acordado se conseguisse porque, estar acordado é estar alerta e alerta mantenho o controle, subconsciente é sub. Detesto maturar meu consciente naquilo que não posso controlar. Sisudo demais.

Aí amanhece. Acalma o torpor crísico e crítico da noite anterior. Calmaria. Algumas horas de paz antes do cataclisma tsunamico que virá no anoitecer dominical. Crise insustentável. A vida que passa, as rugas, as rusgas, os fracassos. Sou jovem ainda, por quanto tempo?

É domingo. Domingo é fim do fim. Pedra solta no bico do precipício. O mundo acaba quando acaba o domingo. Não há ópio que contenha a impotente angustia do fim da linha. Aliás há: Melancolia! Se convertida em inspiração, resulta aqui, desabafo frágil e desarrumado, necessário para o suporte mental aos inertes dominicais.

Boa noite e até amanhã!

Um comentário:

Ana Paula disse...

Olha, só tenho uma coisa pra dizer sobre esse texto: tenho um comprimido rosinha que faz maravilhas contra insonia...é só tomar meio que agente apaga...rss

Alias, só faltou um detalhe no contexto geral: explicar que ao ouvir a musica tema do Fantastico a tamanha desolação que sentimos em se deparar com o final do domingo...Dá vontade de chorar rs