segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As relevâncias de um dia de Rock sozinho e uma madrugada entre vampiros



Foi uma noite diferente de outras noites já vividas, um dia inteiro, na verdade. Mas a história começa antes, dois ou três meses atrás, quando o anúncio da vinda do Faith no More – uma das maiores bandas de uma geração – era gritado aos meus ouvidos pelos meios de comunicação. Não havia dúvida, eu estaria nesse show por bem ou mal, um festival exatamente. Alguns dias de êxtase e, o nome de Jane’s Addiction também estava envolvido. Pronto, nada mais faltava de estímulo, dali para frente o resto todo seria irrelevante: Preço, local, as outras bandas, tudo. Aliás, pela proporção particular do evento, outras coisas também se tornariam irrelevantes.

Como a ocasião da aquisição do ingresso ou a decisão de ir sozinho. No começo até insisti algumas confortáveis companhias, mas, diante da impossibilidade de umas e má vontade de outras, passei a contemplar o prazer de uma experiência solo. Iniciei então a busca por uma condução. Não importa como, descobri uma Van fretada que nos deixaria na porta do local das apresentações e nos traria de volta tão logo as luzes do palco se apagassem. O atraso de quase duas horas para partir sequer afetou o resultado final do dia, ou seja, a primeira intempérie se fez irrelevante, tamanha era a ansiedade. Aqui, aliás, abro parênteses para congratular tardiamente o competente organizador da “caravana da alegria” que, infelizmente, evaporou quando ancoramos de volta e, assim, não pude agradecer como merecia.

Bem, transportados para dentro do exuberante espaço da Chácara do Jockey – o nada irrelevante local que escolheram para o Maquinária – me afastei involuntariamente do grupo e, apenas por isso, pude vivenciar uma curiosa experiência de introspecção em meio à multidão. No início estava deslocado e aflito, entretanto, durou pouco até que eu começasse a gostar da ideia. Das quatro horas da tarde até a meia noite, dividi apenas comigo as experiências que vou relatar aqui, nada profundamente sobrenatural ou excitante, já adianto!

O primeiro show para mim no grande palco foi o do Sepultura. Perdemos, pelo atraso, a Nação Zumbi, mas, para minhas expectativas do dia: simplesmente irrelevante. O fato é que, durante o Sepultura, os latidos graves de Derek Green soaram bem menos irrelevantes do que eu esperava. Acompanhei boas cinco músicas de pé e, todas as outras, estirado na grama com ouvidos atentos. Continuo acreditando no não significado de um disco do Sepultura na minha coleção, mas, me carregariam para outro show, sem nenhum receio. São Pedro ameaçou até uma garoa nesse meio tempo, insignificante.

Enquanto os shows do grande palco eram desmontados e remontados, um palco menor, na outra extremidade da Chácara, servia a bandas menores, para se apresentarem (literalmente) ao público temporariamente ocioso. Bem irrelevante, aliás. Perambulei pelo gramado e entre os palcos; também caminhei entre os sempre higiênicos banheiros químicos e a econômica e nutritiva praça de alimentação, onde os preços e cardápio são irrelevantes, portanto, tirem suas próprias conclusões. Agradeci à minha mochila pelos clandestinos pacotes de bolacha e água que carregava, naturalmente tive de disfarçá-los para que me permitissem entrar “acompanhado”.

Quando o show do Deftones começou, avistei ao longe um espaço destinado à exposição de grafitagem em tempo real. Compreendam que eu sou daqueles que acreditam mesmo na fomentação da arte a partir da agregação e fusão entre todas as frentes artísticas, mas, para se ter uma ideia, “espaço destinado à exposição de grafitagem em tempo real” é uma livre tradução do que se via! E o que se via era um painel branco com ilustrações amazônicas ainda frescas e algumas latas de tinta spray, sob uma tenda com o logotipo de um fabricante de tintas. Não havia sequer um expectador ao meu lado.

O show do Deftones, pela segunda vez, foi irrelevante a mim. Os assisti no Rock in Rio anos atrás e, de lá pra cá foi a primeira vez que ouvia a voz sintetizada de Chino Moreno novamente. Não me interpretem mal, especialmente os companheiros de aventura da Van, que pareciam grandes devotos de Chino e sua patota, mas não fui com clima de anos 2000, estava lá pelos anos 90. Simples assim! Não calculei o tempo de duração, mas pareceu um show bem longo, bom para os fãs. Eu, do meu lado, aproveitei para conhecer os quatro cantos da chácara.

Fui ao lago, bem na entrada, lá longe onde mal se ouvia as caixas de som. Voltando, cheguei ao que imaginei serem estábulos abandonados. Passei então, por construções grandes que me lembraram usinas açucareiras de antigamente. Pensei em como o espaço era excepcional e como suportaria muito bem essas disputadas festas rave e, careta que sou, ri sozinho lembrando que nunca estive em uma festa rave da menor que fosse! Sentei distante do palco, em uma dessas construções e, enquanto almoçava algumas bolachas, gravei uma poesia em parceria com Drummond em meu celular. Seu conteúdo é veementemente irrelevante, o divertido foi criá-la na voz à ausência de papel.

Quando a noite começou a invadir o céu, estava indicando que o show do Jane’s iria começar. Caminhei sem pressa ao melhor lugar possível e, sem qualquer tumulto, me alojei a duas pessoas da grade. A mochila foi posicionada de forma que me transformava em uma gestante barbada. Talvez por isso me tenham dado preferência, tão prestativos. Quando a banda entrou, senti um arrepio que há muito não sentia musicalmente. Era a presença física de um elemento importante daquela geração já anterior, a qual eu, angustiadamente, me encaixo. Perry Farrell estava ensandecido em seu traje e porte físico de Ney Matogrosso, caiu entre os fios e degraus por duas vezes durante a apresentação e ainda assim não se acalmou! Entre um clássico e outro proferiu sentenças apaixonadas, tanto para a platéia quanto ao colega Dave Navarro, em um inglês simples, lento e quase didático. Foi um gesto singelo, verdadeiramente bonito. Depois nos aconchegou com palavras de afeto ao dizer que até os mais afortunados, como Dave, sofrem e que precisávamos ser gentis com ele. O ponto alto foi a inserção no telão, de uma cena de filme onde o ator Kevin Bacon usa um boné do Jane’s e dialoga com um garoto, também fã. Em seguida vários fragmentos de clipes antigos. Nostalgia pura. Do início ao fim, foi lindo.

A essa hora, o tempo se estreitava para nosso encontro com Mike Patton. Quando o palco novamente estivesse iluminado, Patton estaria lá cantando hinos ainda maiores. Eu continuava pregado ao meu estratégico ponto. O tempo instável de calor e garoa havia dado trégua até então, o relógio marcava nove horas da noite e, enquanto os assistentes de palco finalizavam a passagem de som, algumas gotas espessas e avulsas caíram do céu. Mal deu tempo de se afligir com a possibilidade de chuva, desceu a torrente pesada sob nossas cabeças. Todo o palco começou a ser coberto por lonas, mas, vinte minutos depois, antes da chuva atingir nossos pés, o palco já estava sendo drenado pela equipe. Pelo que deduzimos em seguida, a chuva servira apenas para ilustrar a alegoria de Patton que entrou elegantemente de terno vermelho, bengala e guarda-chuva, claro! Após a calorosa recepção e o arrepio ainda mais profundo – afinal era Mike Patton e toda a minha adolescência se colidindo em um transe interno – o show começou com um cover, providencial, de “Reunited” do Peaches and Herb. Típico do Faith no More, após 11 anos separados.

Ameacei uma lágrima, mas, por falta de amparo, preferi poupá-la. De qualquer forma, a economia sentimental se transformou em inevitável no momento seguinte, pois, da segunda música em diante o que se passou foi um duelo paralelo ao show, entre meu momento individual de realização juvenil e a realização individual de um menos jovem obeso exaltado. Ele pertencia a um bando de exaltados e, todos eles sem camisa, besuntados de chuva e suor, deslizavam saltitantes entre o público pressionando-nos contra a grade. É evidente que o ponto de parada da trupe foi logo às minhas costas, onde eles pulariam e chacoalhariam suas camisetas durante todo o espetáculo. No início fiquei irritado, natural, estava incomodado em ser atirado involuntariamente à grade a cada cinco segundos. Em seguida fiquei decepcionado, porque aquilo estava tirando minha concentração. Imediatamente convertido em rancor, armei meu cotovelo e, ao som da bateria incessante de Mike Bordin, desferi golpes contra ele, sem ver onde o atingia. Legítima defesa.

Ficamos nesse embate particular por duas ou três canções, até que, nos primeiros acordes do clássico-mor “Epíc”, ainda mais exaltados, nos acertamos com violência excessiva, simultaneamente. Minha cabeça tremeu e por instinto olhei para trás, ele estava com as mãos no meio do peito e, mesmo demonstrando visível dor, apertou meus ombros e, realizado cantava: “you want It all, but you can’t have it”. Foi justamente assim que, complacentemente decidimos sem acordo que aquele show seria dolorosamente inesquecível. Não contei mais quantas pancadas levei ou quantas devolvi, não foram poucas. Até o fim nós nos deliciamos com cada uma das canções, cada interação com a platéia (em bom português) de Patton e a cada despedida e retorno da banda. Foram duas, quase três! Quando a banda realmente partiu, sem tocar “Falling to Pieces”, embora tocando boa parte do set list de qualquer um que os conheça bem, nos encontramos de frente, o besuntão e eu, e sem apresentações, num vigoroso toque de mão gritamos largamente: “Faith no Mooooore”! – Era nossa congratulação por ter dividido aquele episódio épico e, ao mesmo tempo, um pedido mútuo de desculpas. Vale mesmo a pena ser fã, cada um do seu jeito...

Na volta, ainda atordoado com o turbilhão de sensações que esse fatídico dia me proporcionou, me vi freneticamente ativo, inspirado e sem sono. Resolvi, já em casa, acatar a especial indicação fílmica de “Dança dos Vampiros”, do Polanski. Teria sido irrelevante, dado os avisos cautelosos de tantos amigos sobre essa película, mas, a verdade é que o filme puro e nada transcendental (como eu, descriteriosamente, o imaginei) me surpreendeu e me manteve acordado até quase cinco horas da manhã. É uma comédia satírica, quase pastelona em alguns momentos, com algumas belas cenas e suave, sem grandes exigências intelectuais, ideal para qualquer madrugada. Me pergunto, inclusive, a qual sessão de locadora deve pertencer! De todo modo, eu poderia dizer mais, com maiores detalhes e apelo, mas agora que o dia começa a despontar no céu, sinto que é chegada a irrelevante hora de dormir.

Um comentário:

tatiana disse...

Essa eu já amava há algum tempo.