terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Beijo Tardio

                                                                         Arte: Gustav Klimt


Eram dois e se gostavam muito. Desde o dia em que ele bateu na cabeça dela. E moravam juntos, num dos buracos da montanha. Porque precisava também, não podiam ficar sozinhos com tanto dinossauro! Era um casal das cavernas e eram felizes. Saudáveis e felizes.

Aí um dia ele ficou bastante dodói e não podia mais comer nada. Aí ela passou a caçar sozinha e a cuidar da caverninha pequenininha deles sozinha. Mas não gostava porque ficava muito cansada. Aí ela viu que ele ficava mais e mais fraco, todo dia. Não comia e mal se mexia.

Teve então a ideia de dar comida pra ele igual a passarinho.Daí então, ela foi lá e mastigou a carne de pterodátilo bastante e bastante, engoliu e pôs tudo pra fora de novo, direto na boca dele, empapadinha e quentinha. É que naquela época, ainda não tinham inventado o fogo!

Foi assim que ele curou e voltou a caçar com ela e a cuidar da caverninha deles e a proteger um ao outro. E aí, quando ela ficou indisposta, porque tava esperando um menininho da caverna dele, ele fez a mesma coisa com a comida e foi assim que surgiu, há muito muito tempo.

Foi dessa forma que contou Joana, a irmã mais velha, sobre a origem do beijo. A pequena Joaquina permanecia em choque. Esperava altas doses de romantismo na história. Logo agora que começava a se interessar pelos garotinhos. Tinha nove anos e o primeiro trauma.

Não foi nada disso, não! A primeira pessoa que inventou o beijo quando ele surgiu, era má à beça e o que ele fazia era roubar o coração e a vida das pessoas. Primeiro ele falava para uma mulher que queria casar e ter muitos filhos com ela. Mas era só para a mulher gostar dele.

Daí, quando a mulher gostava dele, ele metia a boca na boca dela e roubava o coração dela para se alimentar. E depois roubava a vida dela também. Ele era um bruxo feio e malvado que só fazia isso porque era muito feio e malvado.

Aí quando ninguém mais acreditou nele, ele enfeitiçou todo mundo das famílias das mulheres para acreditar que o que ele fazia era uma coisa boa, aí ninguém mais via quando ele tava sugando a vida das mocinhas indefesas. Minha mãe disse que esse bruxo existe até hoje!

E disse que conheceu ele uma vez e que ele enganou ela por um tempo, mas daí ele desapareceu de repente, igual bruxo faz! Aí ela falou que só não acabou com a vida dele também, porque a única coisa boa que ele fez foi eu e porque ela gosta muito de mim.

Com as mãos apertando as bochechas, Joaquina, escuta inconformada a contra-história de Marlene, sua melhor amiga. Marlene, que ouvira com desdém o causo de Joana, contado por Joaquina, disse saber, desde sempre, quando surgiu o beijo.

E a história dela era ainda pior. Ao menos havia, no primeiro causo, certo apreço. Uma grotesca, porém singela, demonstração de afeto, de certa forma. Marlene, que era puro veneno em suas palavras, nunca soube, mas presenteou a menina Joaquina com um segundo trauma.

Depois os anos passaram. Joaquina, que já não era mais pequena, agora colecionava traumas incalculáveis. Ouviu na pré-adolescência barbaridades como a das borboletas que os homens botam nas barrigas das mulheres, quando as beijam. E meses depois, a barriga fica imensa...

Também as doenças que o beijo passa. Os germes e todas as moléstias. Joaquina tentou descobrir, quando menina, a origem do gesto que deduzira o mais belo entre duas pessoas. Entretanto, hoje, o que sentia era um medo terrível e, aos vinte e sete anos, nunca havia beijado.

E era mulher de roubar olhares por onde passava, só que, nos homens via imensas borboletas venéreas que vomitavam na boca das pessoas para roubar-lhes a vida. Era uma imagem perturbadora. E embrulhava seu estômago cada novo galanteio. Quase impossível de lidar.

Mesmo assim casou-se (poucos acreditaram), aos vinte e nove anos. Celebrou em missa cristã e, do noivo, muito compreensivo, apertou as mãos para selar a comunhão nupcial. Teve suas filhas, duas, mas o trauma elas não herdaram. Foi até feliz em família, embora incompleta.

Quando fez setenta e oito anos, pela primeira vez, chorou a incompreensão do mais magnífico mistério da vida (dela). Ainda lhe dava asco o beijo, e esse foi seu martírio. O marido, pacientemente insistente, contabilizava mais de duzentas investidas frustradas.

Porém, em um doze de junho muito frio, perto das dez da noite (hora de dormir), Joaquina não fez caso da escuridão repentina, provocada pela falta de energia. Caminhou tateando o breu até o quarto e, desamparada, deslizava pela imensidão preta pensando em pouca coisa.

No caminho, dominada delicadamente pela cintura, arrepiou-se de frio e de calor, ao mesmo tempo. Seu velho marido, de volta da caixa de força, respirava a centímetros dela e sua respiração aquecia os lábios de uma forma excitante. Não enxergava um grão de luz, atordoada. Nem os próprios traumas.

Os lábios se tocaram impulsivamente e, desprevenida, permitiu a invasão carinhosa da língua dele em sua boca. E tocou a língua dele com a língua dela. E continuou naquela dança silenciosa e carnal, admitindo completa, ser aquela, enfim, a origem do beijo.

Os dias passaram, a vida. Naquela história, não havia mais passado, só o interminável presente daquele beijo tardio. Não pensava nele, o sentia. Não pensava em nada. Nem jamais se perguntou que vida teria depois daquele beijo, porque aquele beijo, magicamente, nunca terminou...

2 comentários:

Tati disse...

Paseei por aqui e gostei do que vi.
Beijos, lov u!

Ana Paula disse...

Realmente é triste imaginar que exista pessoas que, por conta de um mal entendido, deixem de aproveitar uma das coisas mais fantásticas que a vida pode oferecer...Tocante!