sábado, 10 de julho de 2010

Mar de Rosas


As rosas, tão ocupadas em brotarem puras e solitárias no topo do caule cheio de espinhos, estão fadadas a morrerem em bando, chacinadas em nome de um amor insustentável dessa espécie tão inapta à auto-suficiência. Crime premeditado: Assassino e cúmplice.

E esses brutais ceifadores mutilam jardins e roseirais na tentativa energúmena de afirmação tirana a um amor homicida. Um amor sem sustentação afetiva, pois, não basta a dois. Ou basta, e as rosas mortas indicam o redor que padece perante a esse romance bonnieclydiano.

Enquanto isso os macabros espectadores/cúmplices assistem encantados o definhar discreto das pétalas aveludadas. Ainda vermelhas e já sem vida, boiando na água. O suave aroma impregnado no ar, não esconde o gesto grotesco e cruel do sacrifício involuntário da flor. Não têm escolha.

Se enterram sozinhas, germinam sozinhas, brotam e florescem sem apoio ou qualquer estímulo companheiro. Aí, quando atingem o esplendor da beleza e saúde, são amputadas da solidão e enroladas umas às outras. Violentadas. Sequer desfrutam da comunhão fúnebre a que são acometidas.

No fim, os falsos cordeiros – sempre tão humanamente inocentes – se satisfazem com o objetivo atingido: O amor perpetuado. Somos mesmo tão mesquinhos e egoístas que nossa satisfação não cansa de sobrepor-se à vida alheia. Sem nenhuma distinção de espécie.

São assim nossos relacionamentos mais intensos, transbordados de pequenos crimes sociais e morais. Um generoso punhado de contravenções inconscientes e beneficiárias exclusivamente a quem pertence a aquela bolha. Um par apenas. Um ser, às vezes.

Pois nem todo crime presume cúmplice. A cumplicidade do homicídio ambiental das rosas está na pasmaceira ignóbil do receptor. Ainda aspirante a cúmplice. Seu crime estará em compactuar da chacina e, por puro sadismo romântico, prolongar aquífero a angústia da flor.

As flores morrem no instante em que, decepadas, se aglomeram nas mãos do carrasco. Dali em diante, não importa a embalagem, é apenas fetiche necro. Quer exaltar a vida? A excessiva sensação vívida de estar amando? Faça um filho, não mate as rosas.

Mas não faça um filho se, apenas para privar as rosas do aborto. Seus genes estarão nessa criança e, se cada romântico tiver um filho em nome das rosas, o mundo se entope em vinte ou trinta anos. Será aromático, não duvido, mas ainda mais sufocante.

Maldita emoção que, sôfrega, ejeta a razão do nosso ser no clímax da paixão. Nos polimorfiza inconstantes e vulneráveis. Sempre despreparados da próxima transmutação de personalidade. Nos desencontramos bobos. Diariamente e diferentes do dia anterior. Despreparados.

Bendita emoção essa que nos dá férias da razão. Nos juveniza e alimenta o que há de mais sensacional para ser alimentado: O amor. É por isso que vivemos afinal. Conquistar e ser conquistado no campo do amor. Outras satisfações pessoais é simplesmente consequência.

“Quem não ama, não vive” – disse há pouco tempo um amargurado bêbado andarilho, no meio da madrugada. Desde então eu vivo como me obrigou o etílico senhor. E vez por outra, divago sem razão sobre coisas estúpidas, sobre rosas. E me convenço, ingênuo, que estou com a razão.

4 comentários:

Má! disse...

Desculpa, mas vou ter que falar que esses "pequenos crimes sociais e morais" não são de todo ruim....

Ana Paula disse...

Estou traumatizada...Nunca mais ganharei rosas...Ou pior, oq faço se ganhar?Cuido dos serviços funebres da coitada?Tô perdida!

Slope disse...

Crueldade impulsionada por sentimentos irracionais é o que nos faz sentir mais humanos... ainda mais cruel, e sem cúmplices, é o solitário "bem me quer... mal me quer", quase um vudu romântico, dilacerando a pobrezinha.

Fabiano Malta disse...

"Bem me quer, mal me quer". Caramba, tem toda razão, Slope! Pobres pétalas...