segunda-feira, 14 de junho de 2010

Quando se diz: Aceito!

                                           Arte: Marion Bolognesi

Casamento não se trata de amor e sim de responsabilidades. Não tem nada daqueles relacionamentos pueris e ardentes da juventude. Aliás, que relacionamento? Relacionamentos envolvem duas pessoas e suas ambições. É uma droga de uma instituição, é isso que é!

E eu acreditava que seria capaz de converter essa relação burocrática em algo prazeroso. Mas aí vieram as crianças e tivemos menos tempo para nós. Depois veio a idade e drenou nosso interesse. Mas como é que encontraríamos tempo para uma terceira pessoa na nossa vida?

Eu não podia imaginar que, com tantas adversidades, tantos empecilhos, encontraríamos tempo para uma terceira pessoa. Mas parece que era só eu, era óbvio demais até. E então se tornou público. E necessário de se decidir socialmente. Os filhos, eles mereciam uma atitude.

Mas não seria naquela noite. Naquela maldita noite eu precisava sair de casa, tinha que fugir e reavaliar o rumo tomado e o rumo a tomar. Me senti um lixo orgânico e mal cheiroso. Saí com o carro sem pedir licença, deixei minha vida para trás por umas horas.

O tanque estava cheio e por isso peguei a estrada e vaguei sem rumo por metade dele. Estacionei em um desses restaurantes de pernoite para caminhoneiros, no meio da estrada, esperando que lá pudesse beber um pouco e tirar esse peso desgraçado das minhas costas.

O ambiente era quase tão triste quanto eu. Alguns caminhoneiros dormiam sobre seus copos vazios de cachaça, a TV ligada sem som não passava nada senão uma novela qualquer e o rádio berrava caipirices românticas. Traições e decepções amorosas, a história da minha vida.

Fiquei ali, empunhando uma garrafa inteira da pinga mais barata. Não que aquela bebida me fosse familiar, mas naquela noite se tornaria uma grande amiga minha. E não a única. No fim do meu terceiro trago – em menos de vinte minutos – percebi uma aproximação.

E veio uma voz aveluda e gentil, que, na verdade, forçava uma robustez deselegante, como se dotasse de uma frágil virilidade. Me virei em direção a ela, sentindo mais curiosidade que interesse e flagrei Maria do Carmo, Carmo como ela preferia. De repente houve interesse.

“Noite difícil a sua, né?” – Foi como ela se apresentou. Não era exuberante e os trajes de homem escondiam a formosura de uma mulher. Seus trejeitos denunciavam um ímpeto masculino, mas, a delicadeza em reconhecer meu flagelo alcoólico era totalmente feminina.

Se aproximou ainda mais quando eu sorri com a complacência indefesa de quem está sem armas em um lugar desconhecido. Não perguntou da minha vida porque entendeu que, minha presença ali, tratava exatamente de esquecer a vida que eu tinha. Me ganhou completamente.

Me contou então da sua origem. Filha de caminhoneiro, passou a vida na estrada e nunca soube da mãe. Herdou o caminhão do velho e tocou a profissão. Herdou também as roupas depois que ele morreu. Era natural pois, caminhoneira, não sobreviveria de unhas pintadas e cabelo escovado.

Ela me contava de como a estrada é libertária e ao mesmo tempo solitária. Ficamos por mais quatro ou cinco doses nos conhecendo. A caminho do banheiro, cambaleando, ela me roubou um beijo que tomou todo o meu fôlego e a força das minhas pernas. Me segurou pela cintura e ofereceu a boleia do seu caminhão para maior privacidade.

Aquela perversão à qual eu estava prestes a me submeter, jamais povoou meus pensamentos puritanos. Tão moralista. Infidelidade sempre foi uma das palavras mais baixas do meu vocabulário. De novo, tão moralista. E naquele momento, aquilo era tudo que eu precisava.

Subimos na carroceria daquele caminhão cheio de histórias, como amantes de longa data e nos despimos sem nenhum pudor. A noite estava quente e era nossa. Fizemos o melhor sexo da minha vida. Três vezes. Era intenso e verdadeiro. Não parecia com nenhuma das minhas experiências anteriores.

Fantasiamos sobre o futuro, tecemos planos a dois, olhando as estrelas. Não teríamos residência fixa e faríamos amor em cada parada, em cada curva. Seríamos felizes. Conheceríamos o mundo naquele caminhão e, na falta da instituição do matrimônio, não nos desgastaríamos.

Nos abraçamos forte, numa vontade hermética de fundirmo-nos em um ser apenas. A noite em breve viraria dia. Acordamos com o sol, ainda frio, iluminando nossos corpos profanados por uma noite tórrida e inesquecível. Não houve remorso ou constrangimento, só um doce sorriso de despedida.

Peguei meu carro e consumi o meio tanque restante de volta para casa. Essa era minha vida. Infeliz e miserável. Eu podia ter ficado com a felicidade imprevisível e desgovernada da Maria do Carmo, mas não teria a segurança e estabilidade da vida que eu tenho na minha casa. Residência fixa.

E, entendi, ao cruzar a portaria do condomínio, não se tratar da traição do meu marido a crise que eu tive naquela noite. Minhas próprias frustrações eram maiores que as que investi nele. Eu tinha fracassado. Entrei no quarto e ele dormia pesado. Essa era minha vida e eu me acostumei a ela.

4 comentários:

Tatiana disse...

Credo. Que medo.

Edvany Oliveira disse...

Ai ai ai...não quero nunca me acostumar dessa forma...rs

Ana Paula disse...

Quanto conformismo!!

Diva disse...

Muito melancólico... uma terapia de casal, ou não, botava esses 2 pra frente.