terça-feira, 8 de junho de 2010

Clichê 1.0


O amor. Essa palavrinha fácil e barata na boca dos dramaturgos, poetas e adolescentes. O amor de dois, escolhido, par com par. Aquele que se aquece no aconchego do inverno e se vende melhor em junho, no aconchego do shopping center.

Que é também o amor de botequim. Não pelo botequim, claro, mas, que parte (muitas vezes e, porque não, nas melhores delas) do botequim, incentivado gradativamente pelos mais altos teores alcoólicos. Amor visceral e demasiado. Espalhafatoso e urgente.

Por outro lado o mesmo amor que, quando entregue à sobriedade, já diluído pela razão, perde o caráter violento e arrebatador que a bebida impulsionou no início. Bêbado de amor, mesmo sóbrio, só o adolescente, ingenuamente embriagado.

Felizes são esses pré-adultos que começam a trilhar seu caminho para a maturidade com boas e inesquecíveis decepções amorosas. Bem-aventurados os que encontram o amor no primeiro beijo, mas, desculpem, felizes são os que se decepcionam arrasadoramente.

Pois os melhores amores são os juvenis, descomprometidos de todo o peso que o futuro reserva. Dedicados a serem simplesmente dedicados. Experimentais, expressivos e intravenosos. Um oceano de descobertas. O berço das nossas relações futuras.

Por isso aqueles que (incluo-me, talvez) demitiram-se da fase mais hormonal e intensa da vida, de encontro com o progresso (pessoal e intransferível), abdicaram, em paralelo, da poesia e dramaturgia. Tudo por que, com o frenesi dessa vida moderna, o amor se tornou um atraso. Não só por isso.

Pela alternativa pouco interativa do universo cibernético, o amor se tornou uma relação social virtual e indireta. A ferramenta que rompe as barreiras da carência à distância é a mesma que inibe o aprimoramento tátil do calor afetivo. Efeito placebo.

Também a doce e desenfreada liberdade sentimental (atual usufrutuário confesso), impulsionadora do desencanto romântico. Quem é que prefere prato feito a buffet? Não sei se certo ou errado, mas, na condição de crer que evoluímos em fases, caminho para transpor essa com maturidade. É disso que se trata, afinal!

Por fim, as frustrações passadas. Mãe de todas as razões. Anti-razões, se soar mais coerente. Mas há motivo mais sensato que abdicar do amor pelo próprio dano que ele causa? Dano tão próprio. Dor tão suportavelmente insuportável. Tão viciosamente necessária.

E essa dor recente, que me bloqueia e cessa o desejo passional é a mesma que me angustia e desperta o anseio pelo próximo chacoalhão do músculo. A vontade de, mesmo frustrado e calejado, se machucar, fatidicamente.

Não é por menos que me queixo aos ventos (tão atenciosos em dissipar pensamentos dissimulados), pelas dores dos amores que vieram e foram, vieram e ficaram, estão por vir e, principalmente, por aqueles que estão por aqui, ronronando e circundando minha barriga de borboletas, buscando aconchego.

3 comentários:

Tatiana disse...

Então tá!

Ana Paula disse...

Ninguém morre??rs Adorei!

Diva disse...

Diferente do seu "jeito" de escrever, gosto mais do outro...Mistério,non sense...