terça-feira, 13 de março de 2012

Eterna Retratação


Eu não tinha nem cinco anos quando disse o que disse. A mais abominável frase que já saiu (e que jamais tornará a sair) da minha boca nessa vida. Apenas uma inocente tentativa de fuga infantil (em todos os aspectos), que resultou nessa inalcançável súplica por redenção.

É que não há perdão, e digam o que disserem. Nem se oficialmente perdoado pelo próprio, talvez até jazido, hoje em dia. É essa herança estúpida e invencível que carregamos desde o instante do nascimento, mais preso no corpo que a própria maçã do Éden. Como um câncer.

Na ocasião do fatídico dia, eu dissimulava o tédio de acompanhar meu pai em seus eventos sociais de adulto e, enquanto toda aquela gente grande se ria e se exaltava na roda de cerveja, eu corria entre caixas e me escondia de mim mesmo, feliz, sem nenhuma outra preocupação.

A sintonia entre os compromissos (dele, de velhos amigos e meu, de auto-entretenimento), funcionou bem até que me esgotasse a criatividade (ou o fôlego, pouco importa). Decidi então, descansar o corpo, recostando carinhosamente a cabeça no colo acolhedor do meu pai.

Nesse momento, a roda havia se dispersado e apenas um homem dialogava com ele. Um homem mais velho. Pareciam conversar sobre algo sério e franco. O tom era baixo e respeitoso. Mas eu não entendia muito da coisa e apenas encostei a cabeça em silêncio.

Percebendo minha presença e, provavelmente querendo gabar-se (coruja) de uma parcela de sua prole, meu pai ergueu-me com zelo pelo ombro e sugeriu que eu cumprimentasse seu amigo. Não era tarefa difícil dizer “oi”, mas, naquele momento, eu preferia o silêncio.

E poderia ter dito simplesmente “oi”, voltando a curtir minha preguiça logo. Mas optei pelo frio e categórico “Não!”. E até aí tudo bem, direito meu. Quando indagado, bastaria dizer: “Não quero”; “Tenho sono”; “Estou com preguiça” ou, “Sou só um menino. Tenho vergonha”.

Mas uma resposta me veio à cabeça muito antes de qualquer uma dessas. Algo que, naquele infeliz momento, pareceu muito mais óbvio e fácil de se compreender. Porque dizer que tinha preguiça para o “oi” forçaria uma insistência e eu acabaria cedendo, contra a própria vontade.

“Porque ele é preto!”, foi exatamente o que eu disse. É claro que eu não sabia o que isso significava, mas já entendia que essa distância racial estava acima de qualquer discussão e, dizer essa atrocidade encerraria a conversa ali mesmo. Como, praticamente, aconteceu.

Meu pai, desconcertado, tentava desculpar-se enquanto me perguntava de onde eu tinha tirado uma besteira como aquela. Respondi com os ombros, sinceramente. O velho senhor procurou ignorar minha idiotice, reconhecendo o costume com que lidava com essas atitudes.

Em poucos instantes, se recompunham num outro assunto e nalgum instante mais, estávamos no carro, meu pai e eu, voltando para casa. Nunca vou esquecer a expressão decepcionada dele. Comigo mas, principalmente com ele, tentando encontrar uma culpa que não lhe cabia.

Porque quem havia me ensinado a ser um pequeno imbecil tinha sido a própria sociedade. A dele, a minha e a de todos nós. E talvez venham me dizer, superficialmente, que foi necessário enfrentar minha educação global dessa forma, para contrair o asco ao racismo e aos racistas.

Pois eu digo que agir como eu agi, apenas uma vez, fez de mim um deles, irreversivelmente. Ainda que uma só vez e mesmo que criança. Mas até o fim da minha vida, carregarei a culpa de ter sido um cretino racista. Vazio e podre. Maculado.

E minhas desculpas (que me desculpe aquele senhor negro do passado), ofereço à sociedade, vítima e ré até as entranhas, de todas as mazelas do mundo. Pelas coisas todas que nos empequenecem, mas, mais que todas as outras, pela inexplicabilidade ridícula do racismo.



domingo, 11 de março de 2012

Perdi a Mão



Perdi a mão. Esgotei de vez aquelas boas ideias rasas e agora nem mais o velho Buk parece capaz de me chacoalhar da pasmaceira. É esse maldito equilíbrio!  Não me lembro de ter requerido estabilidade emocional! Tentei resistir à inércia, mas, preguiça e bocejo, cá estou eu.

Sofá amassado, chá quente e controle remoto. Barriga mental esticando o elástico do crânio. Amoleço entre ressacas e flatulências. Me falta o estímulo, isso sim! E não conheço melhor incentivo que a desordem. Não sou de caçar queixas, mas, onde diabos elas foram parar?

Será que era isso? Só isso? Estar em paz e missão cumprida? É que me confunde essa paz que aquieta o pensar. Efeito avesso! Imaginava um sono profundo quando a paz me encontrasse, mas vem logo a insônia e mostra que paz é para os fracos e sono tranquilo é coisa de criança.

E quero dormir tranquilo sim, mas carregando todos os problemas que me comicham a alma pela impotência, pela incompetência e pela preguiça. Meu alimento! Mas despertar no alto da madrugada, sem sono e oco, é a tormenta que não quero. Como beber para dormir, tão fraco.

Aí eu tento me importar com mazelas que nunca me despertaram a atenção. Mas soa tão falso que logo desanimo. Tento restabelecer princípios antigos e é mais falso e estúpido, ao mesmo tempo. Já tinha desistido deles, não? Me arrisco à fé de hoje e acabo na TV, zumbi cibernético.

Isso porque perdi a mão. E o rumo, que ficou pelo caminho. Não para sempre, mas, tempo indeterminado. Não tenho manilhas ou cartas na manga. Se estou no jogo, é pela possibilidade do blefe. Inseguro de mim, confiante no maço e esperançoso do Straight, na próxima rodada.

domingo, 4 de março de 2012

Deus?


Quanto mais me aproximo da religião, mais me afasto de Deus. E cada vez mais, de uma forma menos reversível. É que quando os homens falam (e não me importa se latim, hebraico, árabe ou sânscrito), o fazem por conta, na interpretação autoritária e na manipulação das palavras.

Subvertendo maquiavelicamente a simplicidade poética das sugestões de conduta moral, impressas nos seus sagrados manuais sociais. Pois, toda a austeridade versícular ali descrita, não cabe na nossa sociedade, com a contemporânea revolução de equilíbrio dos direitos.

E os homens (coisa que digo com conhecimento de causa), são inexoravelmente corruptos! Na moral, na ética e na podridão do fígado e dos pulmões. Defendem interesses muito mais particulares que a dimensão do Deus regente. O qual, por acaso e supostamente, defendem.

Somos nós, aliás, grandes e particulares demais, hoje em dia. Para os dogmas milenares do Torá, do Alcorão, da Bíblia e do Manifesto Comunista também. Culpa dessa satânica sociedade da informação, que nos convenceu que todos os livros sagrados têm lá suas luzes e trevas.

E simplesmente pela obviedade de nada estar tão certo ou errado que mereça o céu ou o inferno. Mas, pelo orgulho imbecil do estandarte a uma bandeira divina, nos obrigamos a negar tudo o que não for do “Deus meu”. Como se uma escola de samba ou time de futebol.

É o tal do fanatismo... Tão baixo e acéfalo que, deveria soar pejorativo da boca para fora. Como “cretino” ou “estúpido”, seus primos mais próximos, na classe dos adjetivos. Mas há que se galanteie e se melindre com a infeliz atribuição. Pobre tapado...

Pois, o que tento dizer, entre todos os meus rodeios, é que fanatismo (segredo nenhum) é estupidez em qualquer lugar: No céu, nos estádios, nos escritórios e no showbizz. É a mais impermeável intransigência na qual o homem, pequeno na alma, pode se submeter.

E Deus, me convenceram (com seus méritos, mas), ainda antes de eu me auto desconvencer da causa, é estado de espírito, mais que sobreposição à crença alheia. Deus é pacificação no caos, e só! E o que mais? É como paladar ou atração sexual e intelectual. Quem questiona?

Cada um com a sua. Cada um com Deus. Seu Deus! À sua maneira e no seu íntimo. E para o magistrado, a responsabilidade de organizar a sociedade, tão mutante a cada geração. Afinal, Deus não pune, apazigua. Não como um abraço de mãe, mas como fadas, gnomos e álcool.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Hollywood em Nove



É noite de Oscar e eu mantenho minha mais consistente característica: Deixar para a última hora tudo aquilo que eu posso deixar para a última hora. Nesse caso, a resenha sobre os filmes indicados à premiação americana do cinema. Todos eles, melhores filmes, pretensos.

Já é tarde da noite e acabo de voltar do cinema onde assisti as duas obras que faltavam. Quais não importa. Aliás, não me encanta a ideia de pontuar um melhor filme dentre os mais de mil produzidos no ano, mas, vou brincar disso, com toda a minha pretensão cinéfila-amadora.

Então, começo de trás para frente, com o pior deles, porque assim gera alguma expectativa (quiçá positiva) à arrogância do meu texto. Steven Spielberg, o grande mago de outrora deu um tiro na água (que ricocheteou numa pedra e acertou o próprio pé) em Cavalo de Guerra.

O filme é insosso e fraco. Não desenvolve ou convence, com seus clichês românticos e fotografia artificial. As cenas de guerra parecem um balé bêbado e as atuações pecam. Difícil aceitar que o Spielberg em pessoa assinou aquilo, sem ter perdido uma aposta no pôquer.

Todos os próximos quatro filmes, são superiores ao pangaré do Spielberg mas equivalentes e médios. O Homem que Mudou o Jogo é a América que Hollywood cospe! Risco, superação, honra, vitória e uma bandeira americana. Filme-pipoca, bom para domingo e segunda a noite!

Os Descendentes dá uma perspectiva diferente sobre o povo havaiano e isso me agradou bastante no início, mas deixando isso de lado, o drama familiar que norteia o filme poderia ter sido narrado de qualquer lugar do planeta! Méritos indiscutíveis à trilha, precisa e delicada.

Então uma mistura arrebatadora nasce para ser o possível grande clichê oscarítico da noite: 11 de setembro e Tom Hanks! Tão Forte e Tão Perto podia ser isso, mas, Stephen Daldry decidiu algo mais sutil, focando o garoto que, contra todos, afirmo petulante que sustentou o papel!

E tais quais os dois indicados anteriores (e também o próximo), a obra de Daldry é simplista demais em sua narrativa e permite que os clichês determinem o desenrolar da história. Como em Vidas Cruzadas que, entretanto, é a única boa surpresa entre os médios.

Eu poderia entrar nos detalhes do filme, mas, vou ser eu mesmo e fazer tudo errado, dizendo da brilhantíssima atuação de Viola Davis, uma empregada doméstica negra, no Mississipi dos anos 60. O enredo é descarado no que diz respeito às relações entre o bem e o mal, mas vale.

E agora, finalmente, os quatro principais filmes, que não me desapontariam, caso ganhem (é sério, eu choro nessas coisas). Em primeiro lugar (ou quarto, fiquei confuso) coloco O Artista, que tem a ousadia de montar um filme mudo sobre o início do cinema falado em Hollywood.

Mas por perder duas ou três oportunidades de ser realmente inovador (frustrações minhas, sobre o que eu preferia que tivesse acontecido entre uma cena e outra), deixo-o fora do meu pódio sem gabarito e particular. Apesar de, possivelmente, levar o troféu no fim da noite.

A Invenção de Hugo Cabret, do Scorsese é meu tipo de filme! Doce, fantástico (substantivo, não adjetivo), inspirador e sensível. Seria meu voto, confiante, especialmente pelo Papa Georges (o pai da coisa, não Ben Kingsley), não fossem os outros dois filmes.

Meia Noite em Paris, o roteiro mais divertido e saboroso que pude ver exposto na telona (embora confesso a culpa da telinha), nos últimos tempos, me divertiu e surpreendeu em cada cena e cada reviravolta. Aliás, a cada novo filme, me culpo pelo respeito tardio (há tempo) a Woody Allen.

E por último, mas, em primeiro (é realmente confuso inverter a ordem das coisas!), reverencio A Árvore da Vida. O filme que me ferveu o sangue e toda a água do corpo durante as duas horas mais sinestésicas do cinema americano, ano passado.

Quando assisti àquela desconstrução de roteiro e aquelas imagens avulsas preenchidas por um texto emblemático e lírico, percebi que tratava-se da maior ruptura estilística da grande indústria cinematográfica do mundo! E admirei a indicação, mas não creio que venha a vencer.

E é fácil dizer a razão: Não tem o perfil da academia, sempre tão previsível. Mas também, principalmente, porque apenas eu e a família Malick acreditamos nessa possibilidade. Que, com esperança, tendo a mesma indiferença a respeito do resultado na manhã de amanhã.

Mas, acima disso e da besteira de determinar melhores e piores de qualquer coisa, é bom que o cinema continue aí, produzindo, provocando, inspirando. Fazendo rir e chorar. Mexendo conosco tão intimamente, mesmo tão distante. Arte, quem define? Mesmo em hollywood.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Personalidade Icônica (ou o Avesso)

                                                                                 Arte: Enoc Jr.


É bem num certo momento (foi ele quem disse) que tudo muda. No mundo, na vida, no tudo. Quero dizer que, sou do sol (embora na mesma luta de sempre, circular e lenta da antimesmice) e rabugento, mas dou o braço a torcer aos bons filósofos do cotidiano. Tão poucos e puros.

Mas só dou esse braço a torcer quando há a sutileza e a simplicidade da afirmação amena, sem a prepotência da sabedoria unilateral, e nem a arrogância habitual da doutrina de mesa de bar (as vezes, inclusive, pecado meu). Por isso que, quando ele fala, confesso, escuto!

Porque há nele, indubitavelmente, mais cavalheirismo e delicadeza em ouvir a contraposição do oponente debático, que embutir no grosso do intestino uma verdade duvidosa e crua, mau formada e mau consolidada. Pois, afinal, somos todos aprendizes das tais verdades da vida.

E todas elas, digo, TODAS essas verdades, padecem flácidas do absolutismo (literal e apolítico), incrustradas em nós, em nosso meio, como leis sacras e incontestáveis. E aí vem os contestadores, pretensos heróis do dedo em riste. Tão amadores que repilo! Baderneiros...

Porque contestação com dedo em riste nada mais é que alienação da opinião oposta (pecado meu, as vezes, volto a dizer!). E pecado de todos, não fosse a doce exceção à regra. Aliás, pauso para refletir sobre meu sorriso à definição involuntária e precisa do objeto em questão:

“Exceção à regra” – E nenhuma outra coisa que não isso! Não, melhor ainda, todas as outras coisas que não isso: A regra. Porque sua contestação é toda sua, individual e autêntica. A cultura da contracultura. Aquela tal libertação da máquina cultural do “isso e aquilo”.

Seu envolvimento visceral com o ser humano. A expectativa e a disposição em acreditar no delicado modelo da interação inocente. “Será que chove?” – A liberdade criativa de saber (ao menos) o mínimo do todo, para garantir qualquer chance de engrandecimento intelectual.

E sua frágil formação não compete com a poderosa articulação das palavras. Ou com a aguçada reflexão sobre as coisas mais inreflexíveis. Sobre a chuva, por exemplo, e seu poder sob o céu e o sol (rei de mim), tão universal e coadjuvante da chuva, toda mínima e terráquea.

Por isso que, no meio do alto verão e do calor que me agita, admito uma mórbida admiração à chuva. Às gotas potentes e sensuais, capazes de nos subverter na origem das verdades e nos transformar em seres metamórficos. Dispostos ao bem, mas, melindrosos, à espreita do mal.