Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
SWÚltimo
Dá uma sensação boa de não domingo, escrever em pleno domingo, com um feriado logo ali na terça próxima. E vem a calhar, depois de um sábado “peculiar” em Itu. E paro em peculiar, por ora, deixando os adjetivos mais específicos para as próximas linhas. Melhor respirar!
Estou ainda reunindo forças para expor com precisão o sábado. De rock, mas não só isso, nem perto disso. Será tarefa complicada transpor todas as sensações (absolutamente novas) de estar na abertura do SWU, evento monstro realizado na mini estância megalomaníaca de Itu.
Tinha até ontem, à flor da pele, a experiência do meu último grande festival, um ano atrás. O Maquinária. Ah o Maquinária, aquele do Faith no More e Jane’s Addiction; de introspecção, organização e paz. Que saudade dos bons fluidos dos festivais de outrora. Pois é, tão recente.
Mas vamos aos detalhes: O SWU prometia, na primeira noite, um evento inesquecível com apresentações de Los Hermanos (voltando aos palcos depois de alguns anos) e Rage Against the Machine (reunidos há pouco, pela primeira vez no Brasil). E outras boas surpresas.
Com toda minha displicência, decidi na semana do show ouvir o restante das bandas que iriam se apresentar nos quatro palcos do festival e acabei encontrando Apples in Stereo, uma oferta recente do meu irmão, que dei pouca bola na ocasião. Realmente muito divertidos, quis ver.
Daí vinha Infectious Groove, The Crystal Method e Mallu Magalhães como atrações que valiam por estarem ali, inclusas no preço. Com a desbravante campanha sonora de descobrir o que rolaria, conheci The Mars Volta, The Twelves e Letuce + qinhO. Pronto a lista estava completa!
Aí começou a bagunça (por enquanto culpa minha). Os horários se misturavam e algumas bandas seriam sacrificadas. Los Hermanos e Rage Against estavam a salvo. Do resto, o que tivesse sido escalado em qualquer horário oportuno seria contemplado com prazer.
No que me cabia, o plano era reproduzir as sensações do Maquinária e talvez turbiná-las, conhecendo agora o potencial emocional destes eventos. Estaria sozinho no meio de muita gente, com tempo para mim e ouvindo bandas que me remetiam à nostalgia.
Outra ruptura com o sólido esquema da minha programação foi o oportuno convite de uma parceria inesperada. No primeiro impacto, confesso, de negação, ressenti calado! Em seguida a aceitação e, depois de tudo, o alívio da companhia certa e fundamental para a ocasião.
Ainda era terça e tudo isso já tinha balançado minha modesta organização. No decorrer da semana descobri os cem reais que me custariam estacionar o carro e, mais tarde, descobri que cem reais e um quilômetro e meio de distância para o local do show. Bolei um plano, estúpido!
As alternativas de garagem eram: A do quilômetro e meio por cem reais, quinze quilômetros e cinquenta reais, no kartódromo de Itu ou à sorte de Deus na rodoviária municipal, vinte quilômetros de distância. Todas ofereciam ônibus até o local do show e aportei na rodoviária.
Tinha ido sozinho até a cidade e os descontos por estar com o carro cheio não me fariam efeito. Além do mais, me pareceu sensata a decisão de poupar algum trocado por quinze minutos a mais em um ônibus lotado. Minha parceria então chegou, vindo do céu, e partimos.
Tudo andava perfeitamente dentro dos conformes embora alguma coisa soasse estranha. Não sei bem o que era ainda, mas eu não me senti acolhido naquele campo. Fiquei contente de não estar sozinho e, melhor que isso, bem acompanhado. Ali sim me sentia acolhido.
Pingamos de tenda em tenda ouvindo os shows menos importantes. Perdemos algumas aberturas, dispensamos alguns encerramentos e perambulamos até que chegasse o momento alto dos Hermanos ou do Rage Against. Acabei perdendo Apples, o único triste sacrifício.
A distância para o palco dos Hermanos era considerável mas era possível vê-los, minúsculos, lá no palco. Foi bonito o sentimento rememoriado e a possibilidade de cantarolar quase todas as canções. Raro. A apresentação impecável não surpreendeu, apenas atendeu perfeitamente.
Mais tarde, sem grandes expectativas, Rage entrou e, mesmo carregando o fardo de ser a possível última banda idolatrada da minha adolescência rebelde, não despertou qualquer euforia. Talvez porque o show, certamente vibrante, rompesse o clima a cada interrupção.
Foram três ao todo: A barricada que cedeu e o som que foi cortado, duas vezes. A cada interrupção a sensação, em processo, evaporava. Ao menos, todas as músicas esperadas foram vociferadas por Zach de La Rocha e, mesmo muito longe do palco, o bate cabeça nos alcançou.
O mais exaltado batedor, dessa vez, notou logo meu ímpeto pacífico e protetor e, em um gesto solidário, abraçou sua acompanhante construindo uma pequena fortaleza ao nosso redor. Assim, os que estavam dispostos a se ferir, afastaram-se respeitosamente alguns passos.
Quando acabou senti alguma coisa estranha, um pavio que não incendiou. O SWU não tinha despertado nenhum sentimento em mim. Parecia nascido com o destino apócrifo de não constar nos meus autos. Mas isso ainda iria mudar. O inesquecível veio a seguir.
Eu poderia ter notado pelo homem nu que cruzamos na via sacra rumo à saída. Foi esse tipo de pitoresquice que ficou faltando. O rapaz andava pacificamente sem qualquer ornamento que protegesse as partes e, pelo inusitado, mereceu meu respeito. Mas a noite não se salvou.
Na fila do ônibus, puro caos. Como conter cinquenta mil jovens impacientes? Todos tinham seus motivos para ir para casa. Alguns pegariam mais ônibus, para outras cidades. Uns para outro estado. O fato é que estar pacificamente na fila certa não me colocou dentro do ônibus.
Depois da fila inútil, o pessoal da companhia rodoviária abdicou da responsabilidade, confiando apenas no bom senso juvenil. Ninguém mais sabia onde as filas estavam, que ônibus ia para onde e qual era o ponto de partida. Os ônibus, aliás, já chegavam lotados. Explica?
Fácil! Os menos civilizados forçavam a porta e invadiam os assentos, muito antes do ponto. Logo os mais civilizados fariam o mesmo. Em seguida, até eu! Era uma selva e podia ter sua diversão não terminasse como terminou. Levamos uma vida naqueles vinte quilômetros.
Invadimos a condução à meia noite e vinte, aproximadamente. Despencamos na rodoviária às quatro e meia da manhã. Tente imaginar quatro horas de pé, em um ônibus circular, com o dobro da capacidade! Ainda estou sem analogias para uma das sensações mais boçais que vivi.
O confinamento e a impotência pela necessidade. Sem o ônibus, jamais chegaria ao destino. Com ele, chegaria ao inferno, antes da rodoviária. E provavelmente ficaria por lá, se desse para dormir, por algumas horas. Eu só pensava que, uma vez no carro, mais um trecho, dirigindo.
O mais irritante é saber que teria aguentado se mais moleque, seria fácil se o dia tivesse sido excepcional. O mais irritante é carregar essa memória do SWU. Um dia, quando não me lembrar mais quem tocou, ainda me lembrarei desse maldito ônibus. Pouco valeu a pena.
Por sorte, não estar sozinho me fez manter a compostura. Modéstia à parte, agregar boas companhias é um talento que tenho e, por esse preciso anjo (que voa, ouvi dizer), preservei minha integridade não tirando a roupa aos berros, às três da manhã. Mas beirei a loucura ali.
Hoje de manhã, domingo, acordei com a pressa de um domingo qualquer e a primeira notícia que tive foi de uma conhecida que conseguiu entrar no ônibus às seis da manhã! As SEIS! Pelo menos a essa hora eu já dormia em casa. Mas penso se ela manteve suas roupas, e a sanidade.
O cruel de todas essas mil linhas é que passei o dia estragado – não fosse por um cinema de última hora (assunto para outro texto) – e agora estou sem sono. Não me sinto aliviado com o desabafo (aliás, mais confuso) e, pode ser uma decisão precoce, mas, acho que aposentei...
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Um Ponto Para o Contemporâneo
Quando veio o convite, sem hesitar aceitei de pronto. Quando me dei conta, já não podia voltar atrás. Tudo bem, tudo bem, nada estava perdido senão o risco assumido. E o momento é de degustação! Tempo de novas experiências e esta, se não nova, um desafio a conceitos pré-estupidificados dentro de mim.
Uma apresentação de dança. Contemporânea. Em São Paulo. Domingo à noite. Faltava muito pouco para que todos os fatores negativos de um convite estivessem juntos, de mãos dadas acenando com deboche para mim. Mas pela idoneidade do convite, o sim era a única resposta certa.
E o tal convite, com a organização preventiva dos mais tradicionais britânicos (embora uma divertida mistura de Chile, Estados Unidos e Brasil), me chegou com quinze (senão mais) dias de antecedência. Daria para retorcer minha ansiedade, se eu fosse de retorcer.
Esperei os dias correrem na pressa oscilante das horas e, diplomático, conservei em uma pequena gaveta, no subterrâneo do meu cerebelo, o negativismo do que isso poderia dar. Para que mais os preconceitos senão para exorcizá-los nas horas mais vulneráveis?
Chegou o tal domingo, quinze de agosto, seis da tarde. Antes disso, a ressaca de um sábado surpreendentemente paulistano em Embú das Artes. Recuperação lenta e dominical, mas, o percurso até Santo Amaro, em outra surpresa, fluiu como em linha reta. Estou aprendendo São Paulo, enfim.
A apresentação no Teatro Alfa começa pelo ambiente, todo pomposo em sua fachada de mármore com acabamento de madeira (nobre?) na sala. A cortina azul com detalhes em dourado alimenta a pompa e convidam cartolas, cetros e monóculos. Felizmente, o traje dispensava gala.
Nos minutos iminentes do início, já confortável e protegido do frio invernal da capital, fui tomado pelo sono dos (in)justos e aceitei (com devida autorização) que a dança tinha dançado, embora, no palco, o aclamado Grupo Corpo.
Por isso, com brava resistência, até consegui ver, quando as luzes se apagaram, o início aceitável das coreografias comedidamente desgovernadas. Segundos depois, minha cabeça dançava no compasso contemporâneo do palco, sustentando-se entre os ombros, para não despencar chão abaixo.
A tendência em sacramentar o preconceito tolo e fácil sobre a dança moderna estava cada vez mais próxima da constatação. Nunca neguei que minha preindisposição à dança tem origem na preguiça de compreender este campo da arte. Jamais dei a abertura merecida.
Felizmente, essa me pareceu uma boa oportunidade para entrar na dança! Retomei a força nas pálpebras e assisti, catártico, a conclusão do primeiro ato. Daí até o descer das cortinas, a deliciosa ruína de mais um chute na ignorância artística.
É fato que, para qualquer apreciação artística, é preciso um bom tutor. Foi assim com o cinema, o teatro, a música e as artes plásticas. Do meu lado, dezesseis anos de balé clássico e uma vocação para a dança. Indispensável.
Comecei a entender, pela primeira vez, a arte da dança. Digo, ainda estou há anos de começar a entender qualquer coisa na dança, mas pela primeira vez, esbocei uma compreensão artística e não esportiva no ato, nos movimentos.
Há uma clara construção poética, muito além do exercício físico e da exibição muscular. Uma estupenda subjetividade nos movimentos. Uma linguagem não verbal, profundamente sentimental, de uma sensibilidade própria das artes, não dos esportes.
Parece até uma impressão ingênua e superficial, reconheço, mas, não capaz de ser outra coisa, é! Ingênuo e superficial, sou uma criança encantada com essa nova descoberta. Curioso e vislumbrado, disposto a escarafunchar tantas outras novas apresentações.
Agora, tudo o que penso são os muitos convites negados ao longo dos últimos anos. Na falta de interesse sem propósito. Penso no que descobri, toda beleza e leveza, o exercício mental de compreender o que está sendo dito aos nossos olhos e ouvidos. Em toda a sensualidade.
E me lembro imediatamente de uma grande promessa da dança, minha referência, tão próxima, fruto indireto da totalidade destes convites. Um dos rostos mais exuberantes e hipnotizantes já vistos. Não tive o privilégio de assistir no palco, e hoje, invariavelmente disposto, provavelmente, jamais terei.
Mas, sem tempo para frustrações, durmo sob o encanto de mais um elemento artístico incorporado em minha bagagem (de mão) intelectual. Satisfeito pelo convite; feliz com o resultado; esperançoso pelo preconceito vencido; saciado, por ora, da arte.
domingo, 25 de julho de 2010
Drexler: Sem fronteiras
Sexta-feira, vinte e três de julho, São Paulo e eu me acomodando em um dos melhores shows da minha vida! A poucos dias de agora. Ainda estou com o cheiro das melodias impregnado em mim e, espero que se dissipe com a velocidade desapressada dos pequenos prazeres.
E um prazer coletivo, que de pequeno fica apenas a referência. A massa uniforme de fãs, simultaneamente, constatou na noite instavelmente paulistana do Via Funchal, o talento e o carisma transbordantes de Jorge Drexler, reaportado mais um ano no Brasil, em outro julho.
O espetáculo que, já antecipo, durou cerca de duas horas (ininterruptas), passeou pela carreira do músico entre as canções do novo álbum, Amar La Trama, e alguns de seus maiores clássicos, rearranjados. Boas surpresas também encheram os olhos e os ouvidos.
Desde quando pisou no palco, Jorge, sereno, demonstrou total controle da situação. Estava muito à vontade de estar ali e não cansava de declarar, entre piadas singelas e apresentações, que o valor das presenças (nossa e dele) era recíproco.
Tocou, nos presenteando em tom de suspense e, fazendo da bossa, tango, Sampa do Caetano (vou deixar essa frase confusa como ficou, por diversão). E ganhou de vez a platéia enquanto intercalava versos em bom português e castelhano na Ipiranga com a San Juan.
Tocou mais a frente Disneylândia que, surpreendeu apenas a mim por conhecer a versão dele mas não a original, dos Titãs. Já tinha assumido a composição como uruguaia e gostava, desrespeitando copiosamente Arnaldo Antunes. O Brasil não saiu de cena com Drexler.
Anunciou a presença de um amigo, para tocar Doce Solidão de Marcelo Camelo. Esperei por Moska, confesso, mas entrou no palco o próprio Camelo, feliz. Tocou só uma música, recebeu elogios rasgados de Drexler e promessas de parcerias futuras. Novo tempero ao espetáculo.
Por isso tão difícil, entre todas as boas surpresas, definir o ponto alto do evento. Tentei escolher durante o show, mas, em casa e com calma, decidi que, entre o soneto declamado e o arranjo novo para Se Va, Se Va, Se Fue, fico com o coro em uníssono de Guitarra y vos.
Com muito carisma, Jorge agradecia os aplausos e cantoria, julgando-os indispensáveis, mas, em Guitarra y vos pediu silencio durante as estrofes e participação no refrão. Emendou até um carinhoso “shh” a uma fã mais exaltada, mas, riu da incapacidade da menina calar-se.
Não houve nenhum momento tenso, justamente pela atmosfera de alegria e disposição criada pelo uruguaio e sua banda transnacional. Todos muitos modestos, da percussão ao trombone, estavam felizes por estarem no Brasil, como disse Drexler.
Críticas apenas ao excesso de luzes, no começo: Na área das mesas para auxiliar os atrasados (dessa vez não estávamos entre eles); às nossas costas (uma repórter decidiu fazer uma passagem do nosso lado); e no palco (uma luz roxa cansava a vista na primeira canção).
Do contrário, vislumbre. O show caminhava para o fim quando a banda, de volta ao palco após uma pausa, tocou Todo se Transforma e se despediu. O invariável bis estava anunciado porque Al Outro Lado Del Rio não havia sido executada e, música de Oscar, não podia ficar de fora.
Jorge cantou sozinho, a cappella, em um tom que parecia desdenhoso ao seu maior sucesso, mas, aos poucos, fomos todos entendendo que se tratava de um novo arranjo também. Artista e platéia, juntos, criando uma nova melodia, livre de instrumentos. Peça rara.
Depois de Soledad (sem Maria Rita) e La Trama Y El Desenlace, encerrou com Sea, deixando uma satisfação pessoal de, mesmo sendo um fã desleixado, poder arriscar meu patético castelhano bis afora e, quando das luzes acesas, suspirar esperançoso por El Fuego y El Combustible que ele, caprichosamente, deixou para o próximo show, ano que vem, julho, provavelmente.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Masculinidade à Prova
Senhoras e senhores, um ídolo afinal de contas. Enfim um ídolo que me incentive a gastar linhas de inspiração poética e passional. Estou apaixonado! Não me constrange, por acaso, assumir aqui o amor de Platão por um ser do mesmo gênero. E não se trata de Brad Pitt. Não dessa vez.
Abro meu coração às claras por um homem que preenche os requisitos clássicos do anti-herói com pitadas anticristãs e uma generosa dose de pró-álcool. Escritor em crise, romântico bruto e um poço de sarcasmo. Tudo isso numa estrutura semi-decadente de colhões impulsivos. Mas apenas um personagem. Ficção. A garantia de sustentação à minha masculinidade.
Entretanto, não estou aqui divagando com a pretensão de fazer cerimônias. É que cabe, neste momento, a triunfal apresentação daquele que, na ficção é tragicamente bem explorado como o eu que pouco exploro. Um personagem criado dos delírios de uma cabeça qualquer que, sorrateiramente – e modéstia à parte –, andou estudando meus insólitos devaneios.
Um homem de discursos perspicazes e diretos, desprovido de bom senso social e capaz de suportar a violência feminina de rosto aberto – desde que renda uma sessão tórrida de amor casual – e ainda, transformar a surra em inspiração. O alter ego que almejo como primo ego.
Um Rocknroller sob medida. Se de um lado da moeda um ser humano degradante, do outro, um homem de princípios e punhos fortes. Há quem não se encante ou, é possível que haja, mas quem não o respeite é improvável. O tempero boêmio que há muito anda perdido.
Aquele cara que, mesmo afundado em misoginia exacerbada, não abandona a noção pura e romântica do amor dedicado a uma só mulher, um só par de pernas. O bom e velho homem de antigamente.
E também aquele que faz de Charlie Harper uma criança em alfabetização promíscua. Mas não só sexy appeal e perversão. Como eu disse, um escritor frustrado. Dotado de um talento nato, bukowskico, defende seus pensamentos subversivos até as entranhas contra a prostitutiva indústria americana de entretenimento. Um inconfundível artista de esquerda.
Mas, claro, sem levantar bandeiras nem assumir posturas político-ideológicas. O bom imoral. Pensando apenas no que é melhor para suas sensações momentâneas, sem pretensões sociais. Tudo é impulso nas ações do melhor anti-herói americano já produzido nos Estados Unidos.
E produto do universo masculino, exclusivamente. Como o batom da Lady Gaga ou qualquer extravagância assinada por Beyoncé, para as mulheres, Hank é o sonho de consumo dos homens. Não pelo que veste ou come, mas ele próprio, antropofagicamente. Dos pés à cabeça e virilidade debochada.
Gênio indomável. Babado por Hollywood e toda a Califórnia. Saudoso da Big Apple, sua doce Meca de inspiração e, também, a potencializadora da ruína aos valores mais tradicionais. Sua nostalgia aos bons tempos – talvez inexistentes – o humaniza e diviniza ao mesmo tempo.
Por tantos atributos e tantas semelhanças ao que nunca vou ser. Pelas inspirações que vieram e as que ainda virão. Pela fantástica magia ópia da ficção, da fantasia e do que queremos acreditar como possível, tenho hoje Hank Moody, meu herói.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
As relevâncias de um dia de Rock sozinho e uma madrugada entre vampiros
Como a ocasião da aquisição do ingresso ou a decisão de ir sozinho. No começo até insisti algumas confortáveis companhias, mas, diante da impossibilidade de umas e má vontade de outras, passei a contemplar o prazer de uma experiência solo. Iniciei então a busca por uma condução. Não importa como, descobri uma Van fretada que nos deixaria na porta do local das apresentações e nos traria de volta tão logo as luzes do palco se apagassem. O atraso de quase duas horas para partir sequer afetou o resultado final do dia, ou seja, a primeira intempérie se fez irrelevante, tamanha era a ansiedade. Aqui, aliás, abro parênteses para congratular tardiamente o competente organizador da “caravana da alegria” que, infelizmente, evaporou quando ancoramos de volta e, assim, não pude agradecer como merecia.
Bem, transportados para dentro do exuberante espaço da Chácara do Jockey – o nada irrelevante local que escolheram para o Maquinária – me afastei involuntariamente do grupo e, apenas por isso, pude vivenciar uma curiosa experiência de introspecção em meio à multidão. No início estava deslocado e aflito, entretanto, durou pouco até que eu começasse a gostar da ideia. Das quatro horas da tarde até a meia noite, dividi apenas comigo as experiências que vou relatar aqui, nada profundamente sobrenatural ou excitante, já adianto!
O primeiro show para mim no grande palco foi o do Sepultura. Perdemos, pelo atraso, a Nação Zumbi, mas, para minhas expectativas do dia: simplesmente irrelevante. O fato é que, durante o Sepultura, os latidos graves de Derek Green soaram bem menos irrelevantes do que eu esperava. Acompanhei boas cinco músicas de pé e, todas as outras, estirado na grama com ouvidos atentos. Continuo acreditando no não significado de um disco do Sepultura na minha coleção, mas, me carregariam para outro show, sem nenhum receio. São Pedro ameaçou até uma garoa nesse meio tempo, insignificante.
Enquanto os shows do grande palco eram desmontados e remontados, um palco menor, na outra extremidade da Chácara, servia a bandas menores, para se apresentarem (literalmente) ao público temporariamente ocioso. Bem irrelevante, aliás. Perambulei pelo gramado e entre os palcos; também caminhei entre os sempre higiênicos banheiros químicos e a econômica e nutritiva praça de alimentação, onde os preços e cardápio são irrelevantes, portanto, tirem suas próprias conclusões. Agradeci à minha mochila pelos clandestinos pacotes de bolacha e água que carregava, naturalmente tive de disfarçá-los para que me permitissem entrar “acompanhado”.
Quando o show do Deftones começou, avistei ao longe um espaço destinado à exposição de grafitagem em tempo real. Compreendam que eu sou daqueles que acreditam mesmo na fomentação da arte a partir da agregação e fusão entre todas as frentes artísticas, mas, para se ter uma ideia, “espaço destinado à exposição de grafitagem em tempo real” é uma livre tradução do que se via! E o que se via era um painel branco com ilustrações amazônicas ainda frescas e algumas latas de tinta spray, sob uma tenda com o logotipo de um fabricante de tintas. Não havia sequer um expectador ao meu lado.
O show do Deftones, pela segunda vez, foi irrelevante a mim. Os assisti no Rock in Rio anos atrás e, de lá pra cá foi a primeira vez que ouvia a voz sintetizada de Chino Moreno novamente. Não me interpretem mal, especialmente os companheiros de aventura da Van, que pareciam grandes devotos de Chino e sua patota, mas não fui com clima de anos 2000, estava lá pelos anos 90. Simples assim! Não calculei o tempo de duração, mas pareceu um show bem longo, bom para os fãs. Eu, do meu lado, aproveitei para conhecer os quatro cantos da chácara.
Fui ao lago, bem na entrada, lá longe onde mal se ouvia as caixas de som. Voltando, cheguei ao que imaginei serem estábulos abandonados. Passei então, por construções grandes que me lembraram usinas açucareiras de antigamente. Pensei em como o espaço era excepcional e como suportaria muito bem essas disputadas festas rave e, careta que sou, ri sozinho lembrando que nunca estive em uma festa rave da menor que fosse! Sentei distante do palco, em uma dessas construções e, enquanto almoçava algumas bolachas, gravei uma poesia em parceria com Drummond em meu celular. Seu conteúdo é veementemente irrelevante, o divertido foi criá-la na voz à ausência de papel.
Quando a noite começou a invadir o céu, estava indicando que o show do Jane’s iria começar. Caminhei sem pressa ao melhor lugar possível e, sem qualquer tumulto, me alojei a duas pessoas da grade. A mochila foi posicionada de forma que me transformava em uma gestante barbada. Talvez por isso me tenham dado preferência, tão prestativos. Quando a banda entrou, senti um arrepio que há muito não sentia musicalmente. Era a presença física de um elemento importante daquela geração já anterior, a qual eu, angustiadamente, me encaixo. Perry Farrell estava ensandecido em seu traje e porte físico de Ney Matogrosso, caiu entre os fios e degraus por duas vezes durante a apresentação e ainda assim não se acalmou! Entre um clássico e outro proferiu sentenças apaixonadas, tanto para a platéia quanto ao colega Dave Navarro, em um inglês simples, lento e quase didático. Foi um gesto singelo, verdadeiramente bonito. Depois nos aconchegou com palavras de afeto ao dizer que até os mais afortunados, como Dave, sofrem e que precisávamos ser gentis com ele. O ponto alto foi a inserção no telão, de uma cena de filme onde o ator Kevin Bacon usa um boné do Jane’s e dialoga com um garoto, também fã. Em seguida vários fragmentos de clipes antigos. Nostalgia pura. Do início ao fim, foi lindo.
A essa hora, o tempo se estreitava para nosso encontro com Mike Patton. Quando o palco novamente estivesse iluminado, Patton estaria lá cantando hinos ainda maiores. Eu continuava pregado ao meu estratégico ponto. O tempo instável de calor e garoa havia dado trégua até então, o relógio marcava nove horas da noite e, enquanto os assistentes de palco finalizavam a passagem de som, algumas gotas espessas e avulsas caíram do céu. Mal deu tempo de se afligir com a possibilidade de chuva, desceu a torrente pesada sob nossas cabeças. Todo o palco começou a ser coberto por lonas, mas, vinte minutos depois, antes da chuva atingir nossos pés, o palco já estava sendo drenado pela equipe. Pelo que deduzimos em seguida, a chuva servira apenas para ilustrar a alegoria de Patton que entrou elegantemente de terno vermelho, bengala e guarda-chuva, claro! Após a calorosa recepção e o arrepio ainda mais profundo – afinal era Mike Patton e toda a minha adolescência se colidindo em um transe interno – o show começou com um cover, providencial, de “Reunited” do Peaches and Herb. Típico do Faith no More, após 11 anos separados.
Ameacei uma lágrima, mas, por falta de amparo, preferi poupá-la. De qualquer forma, a economia sentimental se transformou em inevitável no momento seguinte, pois, da segunda música em diante o que se passou foi um duelo paralelo ao show, entre meu momento individual de realização juvenil e a realização individual de um menos jovem obeso exaltado. Ele pertencia a um bando de exaltados e, todos eles sem camisa, besuntados de chuva e suor, deslizavam saltitantes entre o público pressionando-nos contra a grade. É evidente que o ponto de parada da trupe foi logo às minhas costas, onde eles pulariam e chacoalhariam suas camisetas durante todo o espetáculo. No início fiquei irritado, natural, estava incomodado em ser atirado involuntariamente à grade a cada cinco segundos. Em seguida fiquei decepcionado, porque aquilo estava tirando minha concentração. Imediatamente convertido em rancor, armei meu cotovelo e, ao som da bateria incessante de Mike Bordin, desferi golpes contra ele, sem ver onde o atingia. Legítima defesa.
Ficamos nesse embate particular por duas ou três canções, até que, nos primeiros acordes do clássico-mor “Epíc”, ainda mais exaltados, nos acertamos com violência excessiva, simultaneamente. Minha cabeça tremeu e por instinto olhei para trás, ele estava com as mãos no meio do peito e, mesmo demonstrando visível dor, apertou meus ombros e, realizado cantava: “you want It all, but you can’t have it”. Foi justamente assim que, complacentemente decidimos sem acordo que aquele show seria dolorosamente inesquecível. Não contei mais quantas pancadas levei ou quantas devolvi, não foram poucas. Até o fim nós nos deliciamos com cada uma das canções, cada interação com a platéia (em bom português) de Patton e a cada despedida e retorno da banda. Foram duas, quase três! Quando a banda realmente partiu, sem tocar “Falling to Pieces”, embora tocando boa parte do set list de qualquer um que os conheça bem, nos encontramos de frente, o besuntão e eu, e sem apresentações, num vigoroso toque de mão gritamos largamente: “Faith no Mooooore”! – Era nossa congratulação por ter dividido aquele episódio épico e, ao mesmo tempo, um pedido mútuo de desculpas. Vale mesmo a pena ser fã, cada um do seu jeito...
Na volta, ainda atordoado com o turbilhão de sensações que esse fatídico dia me proporcionou, me vi freneticamente ativo, inspirado e sem sono. Resolvi, já em casa, acatar a especial indicação fílmica de “Dança dos Vampiros”, do Polanski. Teria sido irrelevante, dado os avisos cautelosos de tantos amigos sobre essa película, mas, a verdade é que o filme puro e nada transcendental (como eu, descriteriosamente, o imaginei) me surpreendeu e me manteve acordado até quase cinco horas da manhã. É uma comédia satírica, quase pastelona em alguns momentos, com algumas belas cenas e suave, sem grandes exigências intelectuais, ideal para qualquer madrugada. Me pergunto, inclusive, a qual sessão de locadora deve pertencer! De todo modo, eu poderia dizer mais, com maiores detalhes e apelo, mas agora que o dia começa a despontar no céu, sinto que é chegada a irrelevante hora de dormir.
Assinar:
Postagens (Atom)

