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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Último Humano


Recuperava-se da primeira metade do dia mastigando, com dificuldade, um sanduíche frio. Concluiu que tudo era números. O mundo andava tão calculado e frívolo que a vida tinha se tornado mecânica e, o ser humano, convertido, finalmente, em máquina. E engasgou.

Seu sanduíche de baixas calorias parecia pesado, e tinha um gosto amargo. Seu terno de linho, de milhares de dólares, queimava seu peito e, a gravata de grife o estrangulava. A pressão subiu e já era hora de voltar ao pregão. “É tudo números!”, reiterou enquanto a bolsa despencava.

Bilhões foram para o ralo naquela fatídica manhã. Dólares e pessoas. Alguns poderosos, milhares de acionistas, milhões de operários. E Jesse. Jesse faliu meia América com uma única decisão. “São só números...” – Amenizou. “É tudo números!” – Confirmou, implacável, o ex-chefe.

Da rua, assistiu seus semelhantes indo e vindo de cabeça baixa, apressados. Imersos em seus aparelhos eletrônicos multifuncionais. Apenas ciborgues, desconectados da dilacerante angústia de Jesse que, rompendo o protocolo, mirou a imponente escultura metálica à sua frente.

Mergulhou de cabeça, violentamente, nas nádegas maciças do touro que exibia seus lustrosos bagos de metal, e explodiu o crânio em mais de três toneladas de puro bronze. Aterrizou agonizante, em seguida, jorrando seus miolos pela tumultuada Wall Street.

Absorto em sua própria convulsão, flutuou na imensidão negra que se encontrava e, com a energia de seus últimos espasmos, propulsionou-se para muito longe da Terra. O rosto desfigurado, não foi capaz de demonstrar, mas, por dentro, na alma, sorria. Aliviado, liberto e humano.

sábado, 20 de setembro de 2014

Outreu


Chegou a mim com a despreocupada pompa dos que não se importam - ou fingem - estar acima das carências de atenção daqueles que, na nossa idade, querem quase nada que não, só isso. Apresentou-se amigavelmente: “Carlos Francisco, mas, me chama de Carlão!” – Assim o chamei.

E rebati: “Carlos Francisco, mas me chamam de Chico...” – O nome, sim, era tão o mesmo quanto todo o resto. Exatamente! Carlos Francisco, o outro, tinha a minha cara em cópia, como todo o resto, na fisionomia. Acabamos amigos, porque, afinal, era impossível não ser amigo do Carlão!

Sujeito boa praça, polido, querido. Pensava comigo que, a bizarra versão melhorada de mim. Conversávamos muito e, sem que eu percebesse, estudava meus jeitos, meus métodos e hábitos. Apresentei-o à minha vida e, as pessoas, claro, adoraram-no irresistivelmente.

Não levou tempo algum até que eu, Chico, me convertesse a coadjuvante naquela dupla gêmea. Apócrifo do meu próprio círculo social. Carlão estava em todas. Indiquei-o a assistente na minha repartição e logo assumiu meu posto, consolidando o anonimato que já me era habitual.

Da mesma forma, arrebatou minha maravilhosa vizinha, paixão antiga que, francamente, nunca me deu bola. Até meus pais (PAIS!), estimavam o Carlão como o filho que nunca tiveram. Com tudo isso, toda a minha mediocridade escancarada, decidi, complacente que era a hora de partir.

Éramos tão próximos e iguais, que apenas deixei-o a cargo dos meus compromissos. Carlão imediata e primorosamente assumiu minha identidade de forma que ninguém deu falta da inutilidade minha. Ele mesmo, solicito que só, indicou meu destino, até o fim dos dias.


Tratava-se de uma espelunca, a muitas milhas de qualquer lugar, onde os hóspedes eram todos a versão errada de si. O ambiente parecia hostil no início, mas, eventualmente na televisão, o “outreu” de algum deles dava as caras, bem sucedido. E nesses dias, em festa, vibravámos todos!

domingo, 14 de setembro de 2014

Juca, Fruteiro


O Juca era um cara simples, desses que a gente chama de simples para não chamar de chucro. Juca era chucro, e essa era a verdade. Ele tinha uma quitanda humilde, em um bairro nobre, que recebia todo o tipo de gente. Era um cara simpático, apesar de discreto. E eu gostava disso nele.

Num dia desses, um dia qualquer, um casal à beira da terceira idade, discutia as injustiças do mundo quanto a noção de maturidade entre os gêneros. Estavam bem à minha frente, entre Juca e eu, escolhendo suas frutas e legumes e, divagando suas aflições a quem quizesse ouvir.

Era inevitável ouvir, ela dizia: “Acho ultrajante que envelheçamos, enquanto vocês, amadurecem! O mundo trata de nos empurrar à cova e ascendê-lo à sabedoria!~ - Creio que quem a ouviu, compactuou do desabafo. O patriarqusimo do mundo é triste e incontestável.

Mas o homem, prontamente, replicou empunhando uma tenra manga: ~A meu ver, tratamos os gêneros de forma diferente. Enquanto vocês são frutas, que logo atingem sua deslumbrante e suculenta maturidade, somos como garrafas de vinho, desprezadas até que se envelheça ~.

Nos entreolhamos envolvidos pelo diálogo. Juca, ao contrário, fazia seu trabalho de indicar e pesar os itens aos clientes. “Mas eu quero ser vinho, mereço ser vinho, não acha?” – “Acho! Acho sim, mas o mundo é o mais cruel dos articuladores. Talvez nossa netinha dê sorte...”.

Ela concordou decepcionada e, todos nós, nos decepcionamos um pouco. Juca não, manteve-se sereno. Na minha vez, apontei um cacho de uvas e ele, com sua indefectível discrição, provocou-me: “Sabe, o sujeito estava certo, homens são como garrafas de vinho e mulheres como frutas!”.

Espantei-me com a afirmação e não dissimulei. Ele logo emendou: “Mas quando um cara não envelhece ao lado da sua mulher, a mulher de uma vida, acaba garrafa e só. Oco e de vidro. É que o vinho, meu amigo, é fruto da fruta!” - Juca era um cara chucro, que sabia das coisas.

domingo, 7 de setembro de 2014

O Calor da Fé


No meio do deserto. Me sinto abandonado, bem no meio do mais extenso e árido dos desertos. Vagando cambaleante, dia e noite, a procura de qualquer gole dágua ou resto de comida que prolongue a vida e alimente a esperança de dias menos arenosos. São longos e solitários dias.

Logo adiante, um suculento cacto repousa com seus espinhos compridos e crocantes. O miolo tenro, aquecido pelo forno solar de quarenta e oito graus celsius, me lembra o delicioso assado que minha mãe costumava fazer aos domingos. Hoje, os domingos em casa parecem longe dali.

Da base mastigada do meu almoço, emerge uma adocicada e cristalina porção de água, o mais puro dos elixires, não abundante (nunca é), mas suficiente para hidratar, por mais alguns quilômetros, os pulmões maltratados pela areia fina ao redor. Sigo minha falida jornada.

Já nem sei mais em que direção, há tempos que me sinto andando em círculos. Creio, inclusive, já ter devorado o mesmo cacto algumas vezes. Regenerado e, irônicamente mais corpulento que eu, apesar das cicatrizes evidentes da minha dentição. O cacto parece não se incomodar.

Mesmo assim eu peço licença, toda vez, e agradeço no final. Como que cortejando-o por alimentar minhas esperanças, muito mais que o corpo. A areia fofa e escaldante, destrói minha articulações e grita, a cada passo meu, debochando da minha fé, no assado da minha mãe.

Passaram-se muitos anos e, a essa altura, minha mãe já deve ter morrido. Meu corpo está velho e cansado. Foram milhares e milhares de quilômetros sem rumo, e já não lembro como me meti nessa enrascada. Começo a pensar que é hora de desistir, mas, antes, veja. Um cacto, suculento!

domingo, 29 de junho de 2014

Brevíssimo Ensaio Sobre o Caráter


Algo se mexe no frio lago da luz. Existe uma força, por enquanto estranha, no centro do lago que agita a água e provoca leves ondas, sacolejando sutilmente as pedras da margem. Me aproximo e, do parapeito da ponte que adorna o lago artificial, percebo um algo quase irresistente.

É um corpo. Humano! Involuntariamente trépido, de frio e medo. E pelo avesso da face, deduzo, à beira do afogamento. Debruço-me sob a ponte e observo-o com todas as minhas ponderações: Faz frio, é fato! A névoa sob a água, a fumaça ao redor da boca, o orvalho madrugal e o capote.

Tudo denuncia o frio mais invernal e, enquanto isso, alguém se afoga. Estou apenas comigo diante da cena, mas, e se não? E se de mãos dadas com a futura mãe dos meus filhos? Atiro-me bravamente ao congelante lago e salvo o desconhecido? Aceitaria Hércules uma pneumonia?

E se, mais anônimo, deparo-me com um punhado de incapazes angustiados, acenando ao pré-morto no lago, atiro-me? Ou se, sob a lente de uma câmera do horário nobre? Ou pior, diante de pequenos e marejados olhos infantis dos filhos da vítima do lago? Quando é que me molho?

Quando é que, afinal, o altruísmo sobrepuja a vaidade? Julgando que, de alguma forma ou momento, sobrepujaria. A triste verdade é que, a vida de um possível suicida está nas minhas mãos, ou, pior, sob a tutela leviana da minha vaidade. E, faz um frio do cão, volto a ressaltar!

Estou sozinho no lago da luz no alto da madrugada e, agora os espasmos são menos frequentes. E cessam. Se alguém perguntar, eu nunca estive aqui! Amanhã pela manhã, quando a polícia e os jornais terminarem seu trabalho, estarei acordando, e aos olhos da lei, eu nunca estive aqui!

domingo, 22 de junho de 2014

Messias



Na superfície longínqua do mar sem ondas, emergem sete bolhas, perfeitamente cilíndricas e oxigenadas. Estouram em seguida, com respeitável vigor, diluindo-se anônimas na atmosfera. Essas pequenas esferas de ar jamais encontrarão, por conta própria, um novo par de pulmões.

Como quando tentamos, falidamente, preencher, por absoluta e bem intencionada prepotência, os pulmões murchos dos menos afortunados. Julgando-os incapazes. Não desinteressados, mas, incapazes. De condições melhores de vida. E cidadania. Julgando-os, afinal, menos afortunados.

Muitas vezes, ao longo da vida, misturamos o conhecimento teórico à completa falta de bom senso e metemos o bedelho na vida alheia, escoltados por um pedaço de papel timbrado, na expectativa de salvar o mundo! Como se ele estivesse, justamente, à nossa profética espera.

É de conhecimento geral que o mundo, vem dando suas indiferentes voltas desde que, homônimamente, é mundo. E muito antes do sujeito ter a epifania messiânica sobre as mazelas terrenas, ele já não dava a mínima. E tentou alertar, mais de uma vez! Mas todo herói é teimoso!

Com sorte, essas inúteis investidas trazem de volta não mais que algumas escoriações, físicas ou morais. Noutras, menos tolerantes, torna-o pauta de caderno policial que, pragmático ou lírico (dependendo da relevância em cifras), resume seu empenho em: “Morreu tentando!”.

Enquanto isso, Nathan, que era pós-doc em conflitos urbanos e transbordava disposição para mudar o mundo, desapareceu, nalgum beco da baixada santista. E jamais o encontrarão, pois, extinguiu-se, há pouco, em sete bolhas, perfeitamente cilíndricas e oxigenadas.

domingo, 8 de junho de 2014

Uma Puta no Balcão


Tocou ruidosamente o balcão com o copo vazio e acenou ao garçom que completasse a dose, depois pediu que dobrasse. Tinha o olhar vago e a respiração cansada, típica dos desmotivados. Bebericava sem pressa e assistia, inerte, as pedras de gelo diluírem-se lentamente na vodca.

Estava àquele balcão havia horas e, ao mesmo tempo, estava em lugar nenhum. Desde os últimos dez ou doze anos, tinha parado de contar. Era a perfeita definição do fracasso. Um emprego de merda e uma vida social de merda, especialmente após a separação. Nenhum filho.

Mas não se ocupava em punir a própria existência. Queria apenas suportar o fim de mais um dia ordinário. Vestia-se com a habitual gravata turquesa e a camisa branca de mangas curtas. O broche da concessionária e a carta de demissão amassada, denunciavam sua mediocridade.

Pretendia apenas um pouco de solidão antes de entregar-se ao pesado e agitado sono dos embriagados. Mesmo assim, aproximou-se sem cerimônias uma bela senhora: “A vida tem te tratado mal, meu amor?” – “Desde que me lembro, sim!” – “E que tal um pouco de diversão?”.

“Não sou do tipo que se diverte...” – “Isso não é possível, todo mundo se diverte de vez em quando!” – “Você acha? E tem alguma ideia?” – “Que tal uma foda, aqui mesmo, no banheiro masculino!” – “Claro, porque não?” – “E o que acha de acertarmos quinhentas pratas?”.

“Então terei que rejeitar, estou liso e demitido!” – “Você me entendeu mal... Estou te oferecendo dinheiro!” – “Espera, vou te comer e ainda ganhar uma grana?” – “Sim, comigo é assim. Te incomoda?” – “Nem um pouco... pervertida!” – “Ótimo, então me acompanha... puta!”.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Odara


Odara costuma se gabar que fora Caetano quem a batizara! O próprio Caetano Veloso! Odara é filha única de Maria do Carmo e Maria do Carmo é fã de Caetano. Caetano não conhece Maria do Carmo, mas é fã de Talking Heads. E David Byrne, da tropicália. E ele conhece Caetano!

Mas Byrne não conhece Odara, a filha da Maria do Carmo. Caetano também não. Odara vive no Rio Grande do Sul e, Caetano, no Rio. Odara gosta de conversar e sempre se anuncia como afilhada de Caetano, porque todo mundo já ouviu Odara. Mas Odara não sai muito de casa.

Nessas férias, para variar, comprou passagens para o Rio. Não tinha nenhuma intenção de conhecer Caetano, mas, disse a todo e qualquer um que cruzasse seu caminho, que viajava para encontrar o “dindo” na cidade maravilhosa. Depois contava que fora Caetano quem a batizara!

No voo, sentou-se ao lado de um sujeito grisalho, que falava coisas que ela não entendia. Odara é péssima em línguas e o sujeito entendia muito pouco do português. Odara ainda tentou se apresentar por duas ou três vezes, antes de desistir do sujeito e se apresentar à comissária.

O homem aproveitou para pedir uma dose de vinho. Byrne, fizera um show em Porto Alegre na noite anterior e estava cansado. Agora, voava ao Rio para encontrar o velho amigo Caetano e, Odara, que distraía-se com a TV interativa do avião, não fazia ideia de quem era David Byrne!

sábado, 1 de março de 2014

Tobias e o Sonho de Sete Centímetros


Tobias era um cara simples, desses que são sinceros por pura inocência. Costumavam pensar que Tobias tirara a sorte grande em um concurso público, pois, batia ponto no Banco do Povo.  Só não sabiam que Tobias tinha um sonho e que, apodrecer num cargo estúpido, era sua punição.

Arquivista! Tobias era o arquivista da unidade em que trabalhava. O único arquivista de uma pequena agência na região periférica. Um cargo que exigia pouco e pagava para que ficasse sozinho a maior parte do tempo, como gostava. Tobias era simples, com um sonho apenas.

E já tinha, pelo menos, dez anos que Tobias metia-se por oito horas ininterruptas nos fundos daquela pequena agência, todos os dias de sua vida (exceto os dias santos), buscando apenas solidão. Nesse tempo descobrira que, solidão demais atrai atenção, e prezava pelo anonimato.

Por isso, todo ano, no fim do ano, os funcionários da agência organizavam uma típica confraternização que, a Tobias, parecia nada mais que um sádico ritual, necessário para determinar a paz ao longo do ano seguinte. Portanto, ali, socializa com seus colegas!

Uma vez por ano e só. Cerveja, amigo secreto, karaokê e toda a algazarra prevista para uma festa de fim de ano. Tudo o que abominava. “Como se o ano que vem estivesse a milhas de distância e como se fôssemos esquecer toda a merda dita aqui amanhã!” – Ele pensava.

Mas sorria e acenava positivamente. Definitivamente não entendia o ser humano. Toda vez, no alto álcool da festa, alguém o chamava para proclamar seu sonho. Enfaticamente dizia: “Queria ser ator pornô!” – “E o que te falta?” – Replicavam – “Cerca de sete centímetros” – Treplicava.

As pessoas riam. Quem o conhecia e quem não. E garantiam, todos, entre aplausos e acenos positivos, que Tobias era gente boa! Tobias, atônito, contribuía com um sorriso incrédulo, capaz de dissimular as lágrimas de uma imensidão inatingível, de apenas sete centímetros...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Agnes

                                                               Arte: Cristian Girotto

Quando o celular vibra uma música pop randômica,  na cabeceira da cama, Agnes sabe que é hora de se levantar. O visor do aparelho acusa que em dez minutos serão seis horas e, talvez, falte tempo para todos os compromissos. A caminho do banheiro, Agnes confere sua agenda.

Reunião no colégio, tratamento de beleza e aula de culinária. Aula de inglês seguida de aula de francês. Natação, ioga, Pilates. Tudo antes do almoço. Agnes respira fundo e demoradamente, mal pode crer que esta são suas férias. O sol logo despontará no céu e não poderá aproveitar.

Um dia tão lindo... apenas não é justo. Em frente ao espelho, escolhe com cuidado os cremes, cada um para uma região do corpo. Esconde toda a frustração da vida sob uma pesada camada de base neutra, antes de se maquilar. Chapa o cabelo com uma máquina fervente e se veste.

Desce para o café, disposto colonialmente à mesa. Observa o pote de creme de chocolate na estante e se reprime com a promessa de evitar comidas gordurosas antes do fim de semana. Contenta-se com frutas picadas e leite frio, semidesnatado. Pensa na vida, tão semidesnatada.

Tudo é excessivamente calculado, para Agnes. Como se houvesse um propósito para tudo. Um aprendizado que não acaba. Um necessidade incansável de estar a frente, melhor que os outros. Reconhece a vida que leva como sua, questiona apenas a possibilidade de uma tarde no parque.

Junta suas pastas, bolsa, celular, agenda e segue com a governanta da casa até o carro de Jurandir. São sete horas e, como de costume, o chofer pergunta sobre seus afazeres: “Tanta coisa...”- Ela diz. “Êta menina dedicada!” – “É!” – “E vai ser o quê quando crescer?” – “Criança...”

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Peso da Liberdade


Começou com meu marido. O tempo que durou entre o conselho e a insistência foi curto. Parecia realmente um problema: “Acho melhor, sei lá, você procurar um nutricionista!” – dizia ele, feito bom amigo. Eu podia sentir que a silhueta já não era a mesma. Por Deus, não sou cega!

Eu era capaz de perceber, na saída do banho, que minha juventude começava a se esvair pelos poros. Ele, aparentemente, não. A mim, parecia problema pouco. A ele, parecia problema! Pesquisou profissionais e convenceu minha família que era caso urgente e de saúde pública.

Eu estava gorda, ele dizia. Uma larga vida de sedentarismo e nada mais que dois filhos sem cesária. Era preciso tratar minha deformidade antes que fosse tarde. A barriga, as coxas e um tal de culote! Topei, pois, simplesmente amava aquele bastardo, parece que, mais do que a mim.

Meus pais e amigas me aconselharam a frequentar uma academia e dar um jeito de não perder o meu homem, que já não me procurava na cama, me fazendo ver a luz vermelha do nosso casamento piscar incessantemente. E as tais aulas de spinning eram terrivelmente chatas!

Quando, quase esgotada de tanta aeróbica inútil, fui a um especialista: “Você está acima do peso!” – “Acima? Acima do quê?” – “Do seu biotipo, oras!”- “Mas essa sou eu, sempre fui assim! O que dizem os exames?” – “Bom, parece que tudo vai bem, mas, precisa mudar a alimentação!”

Eu não precisava mudar a alimentação! A urgência era outra. Saí da consulta mais determinada que nunca e, em casa, cortei de pronto as sobras e perdí uns cem quilos maléficos: Marido, TV e padrões. Se me perguntam hoje, quanto peso, digo que o incomensurável peso da liberdade!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Negociando Por Peso


Surgiu da dispersão de uma súbita nuvem de fogo, na alta cadeira de metal cromado à minha frente, do lado de lá da mesa. No lado de cá, um par de assentos talhados diretamente do tronco de um jequitibá ainda novo. Não eram confortáveis, mas, certamente, muito elegantes.

“Bem-vindo, jovem senhor, em que posso ser útil?” – A pele excessivamente vermelha me causava a estranha impressão do sangue fervilhando nas veias, buscando uma maneira de sair de lá. Eu quase podia assistir, indiscretamente, os glóbulos afobados, correndo em mão única.

“Dinheiro!” – respondi pragmaticamente, tentando disfarçar meu estranhamento. “Sua primeira vez aqui, não?” – “Sim...” – Não hesitei, deduzindo que tentar enganar aquele cara não traria benefícios aos negócios. “E o senhor tem alguma ideia de como funciona nosso banco?”.

Eu não tinha nenhuma ideia de como funcionava aquele banco de uma só agência, na parte baixa do centro da cidade: “Não, não faço a menor ideia...” – “E o senhor precisa de dinheiro?” – Transpirava um suor escuro, que manchava a camisa branca de botões e a gravata vermelha.

Era um tanto grotesco, mas, eu não tinha escolha: “Sim! De muito!” – “Não se preocupe, temos de sobra! E como pretende pagar?” – “A prazo!” – Ele riu da minha piada involuntária. “Pois teremos prazer em conceder-lhe o empréstimo!” – E pirofajou num estalo o contrato.

“Uau, é uma alta quantia! Mas não entendi as condições...” – “O senhor paga quando morrer. E não se preocupe, terá uma vida longa e plena!” – “Mas e o preço? Gostei das condições, mas, sinceramente, não entendi o preço!” – “Nada mais que vinte e um gramas, senhor!”.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Crianças...


- Que cara é essa, Bruninho?

- Estou irritado...

- Irritado? Logo é ano novo, será que dá para relaxar um minuto?

- Mas é o seu presente!

- Desculpa, meu amor, a gente resolve isso no ano que vem, bem no comecinho, pode ser?

- Para mim isso é coisa séria! Não consigo fingir que nada está acontecendo.

- Mas é só um jogo, Bruninho...  

- Para você! Esperei o ano todo por isso. Até mais!

- Videogame, Bruno! Vê se cresce! É só um jogo de videogame...

- É GTA V, caralho! Assassin´s Creed é “só um jogo de videogame”!

- Olha como você fala comigo!

- Desculpa, estou irritado! Isso nunca me aconteceu...

- Mas é uma besteira, o jogo está funcionando, não?

- Sim, mas, o encarte... É parte fundamental!

- Você quer que eu ligue na...

- Rockstar!

- Quer que eu ligue na Rockstar?

- Sim, quero, é um desaforo!

- Pode ser ano que vem?

- Não! Agora!

- Eles devem estar de folga, Bruninho!

- Dúvido! E merecem saber o que fizeram...

- Tudo bem, vou ligar na merda do SAC da empresa! Qual o telefone?

...

- Boa tarde, obrigado por entrar em contato com a Rockstar. Em que podemos servi-la?

- Alô, boa tarde! Gostaria de registrar uma queixa!

- Uma queixa senhora? Pois não!

- O jogo, GTA V, comprei de presente e o encarte, aparentemente, veio incompleto.

- Pode me passar o número de série?

- Sim, é 1234lalaralala5!

- Certo! Só um minuto! 

- Ok...

- Senhora, consta em nossos registros que o lote referente a esse número de série apresentou falha na impressão do encarte! Emitiremos um novo encarte personalizado, em nome do seu filho!

- Marido!

- Desculpe?

- É marido, não filho!

- Oh! Sinto muito..,

- Não se preocupe, apenas mande a droga do encarte! O nome é Bruno! E ano que vem, pode apostar, comprarei uma camisa para ele!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carniceiros


“Kellog, vem cá, meu filho! Traz para mim esse saco pequeno. Não! O preto, do outro lado. Isso, esse aí!” - O menino arrastou o pesado saco até ao alcance da mãe. – “Acho que tem coisa boa aqui, sinto o cheiro!” – De repente, estavam todos esperançosos e Gina rompeu o nó do plástico.

“Nada. Só lixo!” – Disse a moça, desconsolada com a falta de sorte. Philip Morris, seu marido, vinha lá de longe, por trás da pilha de entulho que se misturava à pilha de gente faminta e miserável. “Ei, moçada, encontrei salsicha na pilha lá de trás!” – Todos vibraram, esfomeados!

“Olha só Seara, é uma das suas!” – Disse Kellog à irmã, apontando para a lata amassada, suja de gordura e restos. Seara apontou orgulhosa para seu nome, estampado no almoço da família, e rebateu: “Faz tempo que um dos seus não nos alimenta, né, irmãozinho!” – Todos riram.

Ao longe, na pilha de gente e de lixo, uns se gabam de uma velha e enegrecida fatia de pizza, outros urram por um prato descartável, untado de pasta de maionese e uns grãos de farofa (sentem até o cheiro da carne). As crianças disputam, com as baratas, os potes de Danette.

Os que vencem a briga, herdam a alcunha do creme de chocolate, e recebem o respeito dos demais. É assim que se ganha um nome por aqui, como se fosse um título, como se valesse a propria honra nesse habitat hostil e esquecido pelos afortunados da mesma espécie.


Do alto da colina, observam horrorizados os urubus, esperando pelo resto da sobra dos que não têm escolha. Às vezes uma mísera migalha, noutras muitas vezes, um banquete de Kellog, ou Gina, ou Philip Morris ou Seara. Até mesmo os carniceiros estranham a inversão da ordem.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

No Reveillon


No último dia no ano que passou, estava quente feito o cão, um verão dos infernos! Decidi, então, abandonar de vez o maniqueísmo de mim e convidar, Deus e  Diabo, para relaxar num papo descontraído. Mandei-os ao boteco do Pulga, pois, minha garganta coçava por um trago.

Com pouco atraso, deu as caras o Capeta, sorridente e debochado, com a língua de fora. Cumprimentou-me feito velho conhecido, e deu-me um bilhete muito branco, riscado com letras angelicais: “Desculpe Fabiano, mas, no Pulga não vou. Te espero para um café. Att, O Pai”.

“Porra!” – Esbravejei do alto do meu segundo whisky – “Tive todo o cuidado de escolher um lugar nem cá, nem lá e o cara me vem com essa ladainha de que aqui não dá? Ouviu isso, Pulga?” – O dono da bodega consentiu, como se soubesse que Deus jamais apareceria por ali.

Ergui o copo ao Coisa-ruim e ofereci um brinde ao ausente. Ele, excitado pelo deboche ébrio, ergueu seu copo em direção ao meu e, com a outra mão tragou inesitante, o copo cheio que separei para Deus, antes dos dois chegarem. “O primeiro é do santo!” – Disse ele gargalhando.

“Aê Pulga, vai enchendo que é por minha conta!” – Ordenou o Sete-peles, como se amigo do cara. Olhei desconfiado. “Vira e mexe tô aqui, recrutando umas almas bêbadas e fáceis de levar.” – Pulga acenou positivamente, ouvindo a conversa de cabeça baixa, enquanto lavava uns copos.

“Porra, Deus é foda...” – Disse eu magoado, já no próximo estágio da bebida. “Pois é, meu velho, o cara só dá furo! Tu tem que fechar comigo. Aqui é parceria mesmo. Chamou eu vou!” – Ofereceu, oportuno, o Anjo-caído, tentando me convencer às trevas. Abracei-o afetuosamente.

“Cara, gosto para caralho de você!” – Soltei, sincero e de língua mole – “E também tenho o maior apreço pelo cara lá de cima!” – Ele assustou e, marejou os olhos – “Mas não vou contigo, porque, na prática, não acredito no trampo de vocês...” – O fiz, então, chorar feito uma criança bêbada.

“Ei, ei!” – Afaguei-o – “Não quer dizer que não podemos tomar um goró de vez em quando! Tu é bacana, bicho! Só que essa coisa de céu e inferno, para mim, é uma besteira sem tamanho. Mas olha aí, esse monte de babaca bebendo, loucos para serem convencidos em subir ou descer!".

“Comigo é isso!” – Continuei, buscando concluir – “Um porre contigo e um café com Deus. Topa?” – Ele acenou positivamente, enxugando as lágrimas dos olhos, e eu me despedi. Pedi ao Pulga que pendurasse minha bebida na conta do Capiroto, e empurrei a porta de saída.

Era meia-noite e os fogos da virada brilhavam no céu, iluminando o letreiro do bar: Pulgatorium – “Dava uma foto boa!” – Pensei, cambaleante. No ano seguinte, acordei em casa, sem saber como tinha chegado lá e, a foto do boteco, em meio aos fogos, era tudo que eu lembrava...

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eterna


Trançou as pernas, valendo-se da adorável sensualidade das tímidas, e ajeitou o cabelo. Sorriu, no deck patinado, e posou. Atrás, o oceano. Dava as costas para o oceano, como se não percebesse o infinito ao redor. Como se ele não estivesse lá. O infnito. Ela só não se importava!

Com o infinto, embora, reconhecesse o imponente bico de mar derramado ante os ombros. Naquele preciso momento, pretendia nada mais que a leveza da vida, apoiada num par de pernas trançadas, agraciada por um sorriso terno e contemplativo. Essa era ela, naquele cenário.

A pele branca, lisa e macia, misturava-se ao deck rajado de branco e ao céu pálido, coberto de nuvens. A água refletia o branco do céu. Era tudo tão claro e sem cor, tão aparentemente sem vida que, só ela, com seu vestido preto de bolinhas brancas e espírito leve, valia a paisagem.

Era a paisagem, ela. Pesada feito uma pluma, dona de si. Dizem que a porção de água que vem do alto-mar e bate na costa, volta para o oceano e se perde, no infinito. Jamais seria infinita. E não queria, porque naquela foto, com seu sorriso leve e suas pernas brancas, era eterna.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Chove na Lua


No chão rachado, nem sinal de água. A terra seca e craquelada traz nela uma beleza sórdida e sedenta. Plástica, mas, tão sombria. Fabiano está estatelado, a meio caminho de qualquer lugar, em todas as direções. Nada que faça, fará com que sobreviva, no agreste do mundo.

Está exatamente em lugar nenhum. Distante das câmeras da TV e da importância que as pessoas dão aos dramas alheios. Fabiano observa o quilo de carne seca no chão e as duas peças de rapadura caídas pelo caminho. Alguém dará falta da carne quando ela não estiver lá.

Na dispensa arejada e assombreada de alguém que não costuma ter fome. A família de Fabiano terá mais fome. Quando a rapadura melar o solo seco do sertão, terão mais fome ainda. E os mocinhos da cidade se queixarão da sobremesa ausente depois que o prato limpo.

O sol castiga o solo e a pele, no deserto sertanejo. E a pele de Fabiano já apresenta os mesmos sintomas da terra. Ressecada e rachada, estão quase fundidos. O tempo se estende, lentamente. E se esgota, lentamente. Morrer, dura quase mais tempo que a própria gestação.

Uma gota d’água e nada disso seria necessário. A sede, o sufoco e a insolação, inexistiriam. Apenas uma gota para uma outra história. Mais verde e azul, menos opaca. Menos crua. Anoitece na terra do abandono. O sol vai embora. Ninguém fica. Nem Deus, nem os urubus.

Sobra apenas Fabiano no breu absoluto. Um escuro frio, que o refresca e mata, sadicamente e sem nenhuma pressa. Sobra junto, a respiração ruidosa e roca de seus pulmões empoeirados. É sábado, e a vida segue ao redor do mundo. A mesma vida desidratada e anônima do sertão.

No alto da noite, desponta no céu um semiastro luminoso. É a lua. Cheia. Um holofote espectral que reascende as fendas do chão e evidencia carcaças esquecidas ao tempo. Fabiano já é quase a carcaça de si e, entre medos e delírios, percebe que, lá em cima, na lua, chove...

sábado, 14 de dezembro de 2013

Beneficente


Depositou o copo meio cheio (de água) sobre a mesa. Delicadamente, para que não esbarrasse em nenhum outro artefato da elegante mesa. Prezava pela discrição e, com todo cuidado do mundo, perguntou: - Arnaldo, será que isso vai dar certo? – Arnaldo se mostrou confuso.

- Nós dois, você diz? – Lorena acenou positivamente. Ambos tomaram mais um gole de suas águas (em absoluto silêncio) e logo o garçom apresentou o vinho. Arnaldo autorizou que fosse servido. Brindaram, como se brindassem pelos ali presentes, e tragaram a taça de uma só vez.

- Acho que não, Lorena! – Ela engasgou suavemente, como se, quase surpresa. Se entreolharam, buscando algo que os fizesse dissuadir do fracasso iminente daquele jantar. – E o que você sugere? – Francamente? – Sim – A lagosta! – Me refiro a nós dois! – Ah sim. Mais vinho!

Lorena tratou de acionar o garçom e Arnaldo, batendo displicentemente com o indicador na garrafa vazia, solicitou outra. E lagostas. No fim do jantar (e da quarta garrafa de vinho), Lorena parecia menos reticente e ousava exibir seu sorriso aos demais, naquele jantar beneficente.

- Me sinto o centro das atenções, todos nos olham! – Creio que seja um bom sinal, beba seu vinho! – Lorena virou, num só gole, a décima (ou décima primeira) taça e gargalhou ruidosamente, chamando toda a atenção no enfadonho evento. Depois brindou, de taça vazia.

Uns pareciam constrangidos com a senhora de sessenta anos, à mesa com um garoto de vinte e poucos. Outros pareciam discretamente contrariados. Lorena, recém traída (e divorciada), só parecia feliz, e realizada, com seu garotão. Como se representasse toda uma categoria.

Não representava e, antes de ficar aborrecida com os julgamentos vizinhos, tratou de contribuir com a causa (com a admirável e habitual generosidade) e levar sua sobremesa para um motel, perto dali.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Pode Ser


- Oi, essa cadeira tá vaga?

- Claro! Digo, tanto faz.

- Vem sempre aqui?

- Não. Primeira vez. E você?

- Toda semana!

- É de onde?

- Bujari. Interiorzão do Acre. Você?

- Camaquã. Rio Grande do Sul.

- E tá fazendo o que aqui, na capital?

- Trabalhando. E você?

- Pós-doc na federal. Artes Visuais.

- Interessante.

- É sim. E sua área?

- Nada interessante. Bancária. Pelo menos a grana é boa!

- É, artes interessa, mas, dá grana nenhuma!

- Se precisar de um empréstimo...

- Se precisar de uma escultura barroca...

- Ah! Esculturista?

- Entre outras coisas. Gosta?

- Na verdade não.

- Sem mágoas, também não gosto de bancário!

- Mas gosto de teatro!

- Acho um porre!

- E gosta do quê?

- Música. Samba e choro.

- Tenho nenhuma paciência para ritmos nacionais.

- E ouve o quê?

- Clássico. Jazz.

- Imperialista!

- Ah! Música boa te incomoda?

- A burguesia me incomoda!

- Meu querido!

- O que foi?

- Temos nada em comum!

- É. Nadica de nada!

- ...

- ...

- ...

- Então, acho melhor eu ir embora...

- Pode ser. Espere! Torce para que time?

- Odeio futebol!

- É, acho melhor você ir embora.

- Eu vou, mas antes, por curiosidade, quer transar?

- É... Pode ser!

sábado, 30 de novembro de 2013

Alma Gêmea


As vezes nos convencemos que existe sim, nalgum ônibus lotado ou qualquer outro buraco imundo, a tal da alma gêmea! A minha estava por aí dando sopa, e eu a encontrei. Acreditem! Não tem muita gente disposta a sair na noite para não conhecer ninguém. Eu tenho. Ela também!

Foi assim que aconteceu. Numa dessas noites, ela se esparramava no balcão de um boteco barato que eu costumava frequentar. Sozinho e sozinha. E bebia vodka com coca. Me aproximei com um copo baixo molhado e raso de whisky ruim. Não disse nada, só me aproximei. Por esporte, talvez.

Percebi que afastava todos os caras que se apresentavam. Ora mostrava o dedo médio, ora mandava-os à merda. Sempre decidida. Estava apenas tentando beber sua bebida sem conversa fiada. Cutuquei-a com as costas da mão: - Moça? - Escuta otário, vê se me deixa em paz, ok!?

- Foda-se! Sua bolsa tá no chão... - Ah, obrigado! - Foda-se! - E ficamos curtindo o constrangimento daquela situação mais um tempo, até que as bebidas acabaram.  Ficamos encarando os copos vazios, de braços cruzados, até que o garçom tratou de enchê-los.

Um whisky ruim dá, no copo, um efeito mais bonito que um whisky bom. É mais turvo, mais denso e oleoso. Tão artificial. Acho que é assim com tudo. O eterno esforço em ser aquilo que não é. Refleti calado. Enquanto isso, ela tinha voltado a descartar seus pretendentes bêbados e estúpidos.

Tinha nos olhos a exata expressão do desprezo. Como se cauterizada, depois de mutilada por um grande e verdadeiro amor. Até nossas cicatrizes pareciam sincronizadas. E estávamos ali, tentando  sacramentar a mesma busca pela solidão. Era, definitivamente, minha alma gêmea!

Eu tinha que fazer algo e, quando tive certeza que não me via derreter-se, paguei a conta. Só a minha parte. Peguei sua bolsa no chão (novamente) e, sem falar nada, pendurei-a na cadeira. Virei as costas e, apaixonado, fui embora sozinho. Depois disso, nunca mais apoiei os cotovelos no balcão daquele bar!