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domingo, 28 de setembro de 2014

Ego e Obrigado! Tchau!


Enquanto eu falava, visceral e hemofágicamente, pesados sacos de areia despencaram do alto e grudaram o veludo vermelho partido, um no outro, sacramentando o fim do medíocre e egocêntrico espetáculo. O show acabou, meus amigos, e não há nada mais para se ver por aqui.

O pouco que havia a ser dito, dito foi e, qualquer mais, é carência descarada ou, indiscreto pedido de socorro. De uma forma ou de outra, coisa feia! Tão, que soa falta de educação. Por isso, preservando-me um pouco, despeço-me, na escuridão das cortinas que se colidem em fim.

Embora, no meio do argumento e, muito embora, na opacidade do espelho de alguns holofotes. Creio que a máxima exposição (recente, pois, do ato anterior) seja suficiente para a vida de comodismo que virá, já que medíocre no sangue AB+, tanto quanto e nos versos C-. Parei!

Estou à beira do colapso, confesso. No deprimente limite de onde posso chegar, por isso, convalescente, reconheço atingir, depois de tanto esforço, mil léguas menos (ao menos) que pretendia, com minhas pretensas remadas. Morro débil, com mais água que ar, nos pulmões.

Por isso interrompo o semi-autocêntrico-monólogo, enquanto restam aplausos (dispersos e furtivos) na corriqueira plateia. Obrigado, minha gente! Não renego, nem mesmo alcoolicamente adulterado, o combustível que me propulsionou por (quase) cinco anos.

Quem diria! Quem, próximo a mim, diria que qualquer algo resistiria quase cinco anos no âmago das minhas sinceras vontades. Pois, vomitar meus pequenos literalismos ao mundo, resistiu tempo o suficiente para orgulhar-me do meu fracasso e, assim sendo, bêbado, brindo a mim!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Tic-tac Grão de Areia


O tempo é, sem dúvida, o mais cruel dos tipos. Irreparável e vil, na cadência das luas que vêm e vão (coadjuvantes multifacetadas), e dos sóis que sobem e descem, dia após dia e que, apesar de qualquer céu, iluminam ultravioleticamente as profundezas da nossa sombria existência.

Só o tempo, e mais nada e nem ninguém, é capaz de impôr, cessar, sugerir ou exterminar possibilidades. Cada sol e cada lua em nossa vida, meus amigos, é o holofote escancarado das possibilidades diante de nossas débeis intenções. E somos, intencionalmente dementes!

Devotos dos nossos sonhos mais loucos e, reféns inválidos (e esquálidos) das nossas mais inúteis impossibilidades. Ainda que, em algum momento da vida, com as luzes apontando direções mais serenas e claras, escolhemos caminhos desiluminados, por puro capricho aventureiro...

Pois somos desbravadores da nossa própria teimosia e, apenas por isso, caprichosamente malsucedidos na vida (exceto as exceções, é claro!). Somos aqueles que se frustram pensando e que, lá na frente se dão conta que, talvez, fosse melhor do outro jeito. E eram só dois, os jeitos.

Mas já não o são, porque, apesar dos caminhos bifurcados, pernas para uma trilha apenas. E lá longe, com os joelhos duros e barulhentos,  com o corpo rastejante, temos no jeito alternativo apenas um vislumbre. O mesmo cintilante e bijutário vislumbre do equivocado caminho primo.

Enquanto isso, o tempo, algoz das más escolhas, deleita-se com as rugas no rosto e com o irreversível fracasso estampado no rosto. Somos metade carne (a dor, insustentável, em cada terminação nervosa) e metade sonho (o afago, onírico, no corpo transcendental). E mais nada!

Razão, é ilusão....

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Deus e Diabo na Terra. E o sol?


Subo o tom e digo, em dó maior, que é necessário, em vida, eleger Deus e Diabo, na Terra. Apesar de qualquer credo ou transcendentalismo. Em terra. Duas entidades rigorosamente imbatíveis, tão frágeis quanto você. E lhes digo por bem, após trinta míseros anos e, quase mais.

Mas não respeitem meus trinta por mais que os dez mil dias de vida que deixei para trás. Meu respaldo resvala neste único e micho argumento. Se menos que isso, aceite, de bom grado, o conselho a seguir. Se mais, conteste, cronológicamente, pelo direito de ensinar-me a vida.

Mas, até que me interrompa, desembucho! Pela epifania súbita dos supracitados eleitos. Creio em Deus como creio no papai do extremo norte, mas, decidi de estalo que, um Deus palpável, humano e eleito, é crucial para meu desenvolvimento moral, físico, intelectual e todo o resto!

Tal qual o Diabo. O antagonista sujo a todas as qualidades inatingíveis que, inútilmente, almejo. A verdade é que, pela bagagem que carrego, carrego comigo, há mais tempo e, muito mais sacramentado, o Diabo de mim. Aquele que espelho e dedico minha existência, ao avesso.

E, nem por isso, essencialmente ruim, mas irremediavelmente oposto, de mim. Apenas por ser quem é. Apenas para que eu não o seja. Creio, aliás, que seja seu papel maior, carregar o fardo de se impôr socialmente com tudo aquilo que desprezo. Meu Diabo é, na prática, meu desprezo.

Já Deus, meu dilema atêico, migra feito vírus, entre corpos cristãos e pagãos. Entre moralismos e ceticismos. Meu Deus é uma vadia fácil e transitória, enquanto, meu Diabo, reina confortável e insubstituível. Já o sol, bem, o sol segue no alto do céu, fervendo minhas ideias...

domingo, 30 de março de 2014

Do que me Alimento



Estou todo lambuzado e estufo o peito para dizer! Sabe aquele bolo de mãe que você espera babando, sem nem deixar a cozinha, até que o bicho esfrie ao ponto de ser, categoricamente, devorado? Era assim que me sentia até ontem, pois hoje, sujo, saciado e todo lambuzado!

E que delícia! São só palavras, mas, analogamente, são também só raspas de chocolates... Me esbaldei! Tenho agora letras grudadas no rosto todo. Escorrem pelo pescoço e pousam na altura do coração. Sinto-me sinceramente alimentado. Cada um com seus nutrientes. Eu como letras!

Letras que se integram e se agororobam, que formam um bolo de palavras, indescritível e saborosíssimo. Um bolo de palavras que têm no topo, a cereja da personalidade. Não como-leio, necessariamente, quem deva ser comido-lido, mas, apenas quem me sacia na pança e no peito.

Vamos falar de amor! De sonhos e de todas as nossas angústias. Vamos desabafar como se confessássemos ao espelho nossos temores que, isso, me abre o apetite a ponto de roncar o músculo. Conta para mim o que se passa porquê, assim, outorgo o tempero da minha alma.

A fome se mistura a falta de apetite quando me alimento de porcarias, mas, quando como o nutriente certo, me sinto com as energias recompostas. Chego a arrotar, ruidosamente, o alfabeto inteiro. Pois eis o endereço, no topo da página, para garantir a veracidade do dito!

São só palavras, eu sei. Mas as palavras certas. Decidi (há pouco) mudar minha dieta e comer quase só o que me faz bem, apenas palavras, não conta lá em casa. Vou ao mercado sempre que a dispensa ocaliza, se atentem estimados, pois, quando eu chegar, por favor me alimentem!

domingo, 23 de março de 2014

Anoiteceu Dentro


É desesperador, mas, constato: está ficando tarde. Lá fora escureceu e, aqui dentro, também. Uma luz turva e fraca é o que me resta e não serve. Já não consigo ver e creio que a cegueira natal teria sido menos cruel, pois, olhos sadios no breu, são nada mais que falsa esperança!

E para quê diabos me servem as falsas esperanças já que, até mesmo as esperanças verdadeiras são perigosas? E que tremenda violência conviver com a memória dos dias claros. Os detalhes e a clareza do sol batendo na alma. A nitidez da auto-estima. Tão alta! As palavras que fluiam...

Hoje não. Olhos cerrados e veias saltadas em um esforço feio e medíocre para encontrar um qualquer enredo que mantenha os olhos iluminados. Agora é tarde, caros amigos. Está escuro e não há mais nada que possa ser feito. Talvez amanhã. Quando amanhecer amanhã, talvez...

Por enquanto noite! Uma longa e interminável noite. Fria e sem lua. Suaves tropeços e pequenos passos rastejantes no escuro me mantêm vivo. Mas não muito. De todos os sentidos, o que mais faz falta é o que me falta. Nenhum dos cinco perceptivos, mas, aquele etimológico e original.

Porém, reforço que enxergo! Envolto na completa ausência de luz, enxergo. Mesmo assim, é como se cego. Surdo, anósmico, ageunésico e anestésico. É como se morto, companheiros, se isso facilita a compreensão! Defino agora, do alto da minha derrota, que os dias claros se foram!

Bons. Mas extintos. Até que, quem sabe um dia, amanheça...

domingo, 16 de março de 2014

Suco de Banana


 Encaixo no lugar, toda a parafernália do meu espremedor de laranjas e separo uma penca de bananas. É um esforço dos diabos extrair suco de banana! Talvez, tivesse sido mais fácil espremê-las com os punhos, e claro, teria sido mais fácil ainda espremer laranjas. Mas não hoje!

Hoje tenho apenas bananas e uma sede que me resseca a goela e raspa a saliva de ponta a ponta na garganta. Acho que o nó que dizem que dá, não é figura de linguagem, afinal de contas. A sede exagerada e a falta do que beber criam uma espécie de caroço que trava até o oxigênio.

E cérebro mal oxigenado dá um barato estranho... Uma coisa muito louca, porque oca. No fim, deve ser isso, o fluído certo na boca, que empurre o caroço para baixo e desobstrua os pulmões. Fluído certo é laranja, eu sei, mas, que faço eu se apenas uma duzia de bananas nas mãos?

Espremo! Aperto e empurro. Pronto! Abaixo do espremedor, meia caneca de um creme esbranquiçado e feio. Em volta, vestígios do mesmo creme, espalhados por toda a cozinha. Meto o copo na boca, torcendo para que o pseudo-suco surta algum efeito positivo nessa sede súbita.


Mas a droga da papa de banana entala na garganta e corta de vez o tráfego de ar. Agora é tarde, em pouco tempo cairei roxo no chão frio da minha cozinha. Morto. De Sede e frustrado. Bananas? Que ideia! Que ideia? Como eu queria ser do tipo de cara que espreme laranjas...

domingo, 17 de novembro de 2013

A Densa Mata Baldia


Parece daninha, já que cresce irregular por todo o redor, espalhando a camuflagem que enegrece, vagarosa e precisamente, meu universo particular. Essa mata que protejo, dissimula um qualquer algo sombrio, já há muito escancarado nos traços mais óbvios do meu rosto.

Brota, imponente e irrefreável, do jardim da frente. Formando uma espessa barreira às trilhas projetadas a me guiar entre as flores. Não sou um entusiasta das flores. Não! Convalesço apenas por elas, coloridas e cheirosas e fincadas no chão, sujeitas ao abandono assassino do homem.

Por isso então, brota de mim a mata densa. Barreira, escudo e cerca. A negra mata do ostracismo e seus espinhos imaginários. O selvagem capim escuro que desconhece foice, enxada, rastelo e creme mentolado. Se espalha por cada poro e cada clareira, conquistando todo o território.

Vertiginosamente vertical. Dominando-me e abandonando-me de mim. Aí que reservo-me bicho. Ao arremesso dos restos, à presença dos ratos. Aos entulhos. Tenho cada vez mais, uma expectativa menor. Cresce o mato e vão-se as portas e portões. Ficam cobertas as janelas.

Até que só mato. E eu lá dentro, esquecido. Envolto nas grossas e rudes folhas de capim-preto (alguns albinos). Aí, enfim, baldio! Inculto, ou, analogamente, incultivado. Tão impenetrável que, em seguida, floresta! E finalmente não mais um insignificante terreno improdutivo.

Agora, propriedade ambiental! Patrimônio! Da humanidade! Sim, isso significa que de todos vocês! A improdução canonizada. A vida eterna que almejei com muito desleixo e falta de vontade. Enquanto penso, e desconverso, ouço o mato crescendo silenciosamente em mim.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Post Mortem


Tenho uma estranha relação com a idolatria. De aversão, quero dizer. Sinto, aliás, uma enorme desnecessidade em admirar qualquer dito cujo por quaisquer que sejam seus feitos na Terra. Mas me refiro, exclusivamente, aos massissamente admiráveis (da TV, internet, palcos e discos).

Uma pura mesquinhez, não hesito em confessar. Inveja grossa dos que chegam lá e agarram, com garras afiadas, os sonhos que são também meus. E que morrem sonhos, em mim. Aí dou pouca importância mesmo. Apenas pela arrogância de não ser eu, brilhando lá, no mundo real.

Já aos mais próximos, é justo dizer, guardo genuína simpatia quando das próprias realizações. E não por que estive lá, acompanhando de perto o que pretendiam fazer e fizeram, mas, por que estive lá, torcendo em ser alguma nota de rodapé na biografia, pela colossal influência exercida.

Aqui dentro, jovens, do lado de onde encaixoto sonhos que não realizo, dou confortável morada a uma criança insegura e egocêntrica, desesperada por atenção. Que se ampara comensal, feito rêmora faminta, no sucesso alheio. Afinal, claro, preguiçosa demais para si. Graças, amigos!

Aí eles morrem! Não, não os amigos! Esses firmes e jovens e fortes (mesmo os enfermos), mas, as celebridades. Essas, invariavelmente, morrem. E só então sou capaz de reconhece-los mito. Como Reed, por exemplo, meu mais novo ídolo Post Mortem. E levei só quinze anos para ceder.


Por que desde sempre esteve lá a banana wahroliana. E eu preferi outras coisas. Coisas tão menos sinceras que o Velvet. E que Lou Reed. Coisas, as vezes, tão estúpidas e vazias. Lou deu sua vida por coisas boas. Eu devia ter dado conta antes. Antes dele dar ao mundo, sua morte.

Lou Reed * 1942 - 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ah Se Eu Fosse Uma Toupeira!


Para que servem os olhos se, socadas na terra a vida toda? Cegas da calamidade humana. Iluminadas pela escuridão divina ante as frivolidades do homem. Eu que, irreversivelmente humano, e que, afortunadamente pouco míope, vejo, triste, humanos esbanjando humanidade.

Com seus (muy bien definidos) conceitos de autossuficiência e de fodessência aos demais que compartilham da espécie, bradando: “Tem mais é que se foder!” – Qualquer um e todo mundo, eles dizem: “Têm mais é que se foder!” – “Menos eu! Eu não mereço me foder nem fodendo!”.

Penso nas formigas em fila, nas hienas em bando, nas araras monogâmicas e, PORRA, tanto bicho se autocooperando e fui logo evoluir à espécie mais autocêntrica do planeta? Amebe-me! Planarie-me, ou, mamiferamente (que adoro leite), touperize-me! Me cave um buraco e deixa!

Deixa que lá embaixo tomo rumo. E vou longe. Cavo adiante e profundo, distante das guerras e disputas que dividem minha espécie prima. Aquém das estupidezas que definem meu reino, classe, filo, ordem e etc. Me permita levantar a fuça aos berros: “Eu sou uma toupeira!”. E é só!

Tem gente humana querendo megasena. Gente em busca de uma medalha de ouro e, gente desejando ser melhor do mundo nalguma coisa. Mas quem melhor que um igual a não ser que, exclusivamente, mais dedicado? E se próprio suor, só mérito pessoal e, nunca, demérito alheio.

Triste é o homem que crê na ilusória sapiência do poder infindável. Com aquela clarividência arrogante dos deuses. Formigas, hienas e araras reconhecem-se formigas, hienas e araras. Nós não. Nós, simplesmente, não nos reconhecemos. Ah se eu, cego, fosse apenas uma toupeira!

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Células Sacanas e Leveduras



Herdo, pelo inevitável aprisionamento da espécie que me define em células e ego, algumas possibilidades nefastas. Sou humano e, por essa e outras razões, pertenço a incontáveis grupos de risco! Eu podia, por exemplo, ter câncer, mas, malandro que sou, prefiro ter sede!

Sou sujeito simples, digo, de gostos simples e, sede, me apetece mais que células mutantes se multiplicando desordenadamente em meu organismo. Simples, não? Ademais, sou avesso a quase todo tipo de tumulto. Porque tumulto, vira e mexe, dá câncer! E câncer, me cansa.

Prefiro mesmo a sede. Gelada e amenamente amarga. Dourada e borbulhante. Alva e cremosa! Colar? Toda a elegância de dois dedos e mais nada! Um só gole, no verão, e até a alma estremece refrescada! Quem, em sã consciência tem câncer se, tanta cerveja por aí!

Tão milenar que, sagrada. Amém! Renegada por romanos e por mim, lá atrás, mas, tempo que passa, sufoco romanices (sem blasfemar o rubro sangue do homem) e ergo a caneca (despudorado triângulo alcoólico-amoroso): “Saúde!” – Meu sincero desejo, a plenos pulmões!

Saúde para quem nunca teve câncer e, saúde, muita saúde, para quem teve. Saúde e sede! De cerveja. Se não, do que for! Beba! Deslize na boca o néctar mais refrescante. Se afogue de vida! E estremeça a alma. Beba o quanto puder, enquanto sedento. Mas nunca, de vida, sacie-se!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A Metade Exata



Tenho quase certeza de envelhecer na exata metade do tempo do corpo. E dessa vez não divago sobre a velhice, mas, sobre a juventude. Uma juventude pura e tão mais forte que as fibras e os músculos, pois, justamente, transcende o corpo que não hesita em se esvair.

Sim, os cabelos brancos e precoces que despontam daninhos por minhas têmporas não negam que a carcaça débil segue seu fluxo previsto. Só que a cabeça, nossa, essa é menina virgem e boba! Pré-adolescente. Esbaldo-me em erros e anseios juvenis, apesar dos trinta.

Porque quinze, se é que me entendem! Meu mundo de dentro gira a quarenta e oito horas por dia. Isso em dias agitados! Tem dias que a desproporção é maior ainda, pois, o corpo dura nem seis horas. Quando vejo, nem vi passar. O tempo só faz definhar o corpo e morremos...

Morremos de corpo, naturalmente. Com a cabeça assistindo, indefesa, que a vida acabou. Aos cem anos, se sãos, seremos jovens ainda. Porque cinquenta, no máximo. E quando digo que envelheço na metade do tempo, peço suas mãos e companhia, pois, todos nós juntos.

Não conheço um que vinte anos aos vinte, sessenta aos sessenta e, enfim... Somos metade do que vivemos, e sempre seremos. Penso no desespero de ter trinta anos. Corpo e cabeça, simultaneamente. Velho e chato, sem sombra de dúvidas. Quem é que quer uma vida dessas?

Acabo de debutar, jovens! Jovem! Na flor da idade e, apesar das sucessivas sessões de fisioterapia, jovem! Curioso e medroso da vida. Sem rusgas. Pai das minhas estripulias e menino outorgado ao erro. Vivendo a vida que me cabe. Caprichosamente, pela metade.

domingo, 7 de julho de 2013

Os Tijolos Amarelos Pelo Caminho



Tenho lá minhas dúvidas sobre a vida. Digo, da extensão dela. E me refiro à distância percorrida versus a intensidade diária. Será que são unidades de medida distintas? Se sim, preciso descobrir, afinal, qual medida devo usar nessa minha vidinha ora mais, ora menos.

Mas antes, tenho que descobrir se o ar respirado vale mais pelos anos ou pelos dias. Acho que é isso! E sou sincero em dizer que não sei se a beleza está no futuro, que faz do presente um eterno canteiro de obras, ou se no presente, que faz do futuro um longo túnel deseluminado.

Para mim (e não se trata de guruzismo e nem do mapa da mina), a vida tem um único objetivo, simples, simplista e com cheiro de clichê: Felicidade! Quer coisa mais idiota que esperar da vida, boas e opulentas porções de felicidade? Não! Esse é o tamanho exato da minha idiotice!

Mas nessa direção estúpida, qual caminho devo seguir? O da saúde para a longevidade? Ou do excesso para a intensidade? Gostaria de não precisar dissociá-los. Gosto da longevidade tanto quanto do excesso. Mas Deus, sempre gozador, parece tê-los colocado em direções opostas.

Apenas pelo capricho do dilema. Deus gosta de nos colocar em estradas bifurcadas. Sem apontar a direção correta, nunca! E ainda dá nome à coisa: Livre arbítrio, que nada mais é que o direito de errar por conta própria. Justo a nós, seres evoluídos, decididos e prontos.

Eu, por exemplo, sei bem o que quero, que é simplesmente saber o que quero. Mas calma lá, elucido a confusão da espécie garantindo e reforçando que quero saber o que quero, já sabendo o motivo maior da querência, que é a estúpida felicidade, lá do início do devaneio.

Por isso entendo (ou acho apenas, já não sei) e concluo, tão esclarecido quanto comecei, que o jeito de chegar lá é escolher uma direção e sorrir para os tijolos amarelos da estrada, satisfeito com o marasmo da longevidade ou com o frisson da intensidade carpediniana. Pronto!

Dei para criar frases ultimamente. Mas não pretendo disso um ofício. Essa, acho que é minha, mas não reivindico autoria. Apenas gosto e reproduzo, que é para engrossar o caldo do clichê: “A vida é muito curta para quem quer tudo. E longa demais para quem não quer nada”.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Talento à Queima-Roupa


Um quarto escuro e um silêncio abismal. Tão quieto que é possível ouvir o desespero mudo dos que habitam aquele quadrante vazio. Anônimos e invisíveis, aos outros. Atemporais, no escuro absoluto. O silêncio ecoa pela imensidão incalculável do quarto do “completo nada”.

Os braços se tocam, hostis. Ombros e cotovelos se empurram e se digladiam com truculência. Não que intencionem prejudicar o colega oculto de breu, mas, dispostos apenas a defender o próprio, na iminência dos disparos. Apesar do nada lá, tiros certeiros surgem esporádicos.

Clarões fugazes despontam do céu e cruzam, numa fração de segundo, o preto ao redor. Quase dá para ver o redor, mas, logo a luz atinge um determinado ponto e imediatamente está tudo preto outra vez. A sensação neste ambiente solitário, senhores, é desesperadora!

De repente, outro clarão! Os muitos, amontoados ali, tomam o mesmo susto ruidoso de todas as vezes e começam a se manifestar. Atiram-se uns sobre os outros. Se chutam e se mordem, tentando absorver o destino do ponto luminoso que, mais uma vez, atingiu onde quis.

E, como um meteoro alucinado, atropelou a cabeça de um deles, o desintegrando no mesmo instante. Novamente no escuro, milhões exalam a frustração de não serem atingidos na testa. Ou mesmo no peito, ou nas costas, em um dos braços ou, ao menos, de raspão no pescoço.

Todos ali, ocos de ideias, desesperados pelo lampejo radiante, aparentemente randômico, que surge nos céus e arrebata um deles. Nunca um qualquer, pois, apesar de ocultos, acaba sempre baleando um Picasso, um Tolstói, uma Woolf ou uma Nina. Nós, simplesmente, não...

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pólvora Para o Botulismo


O botulismo é uma intoxicação alimentar e uma forma de governo. Causada por uma bactéria presente em países e em alimentos mal conservados, a sua ação resulta na paralisia dos músculos, podendo impedir ações como protestos e a respiração, levando à morte por asfixia.

A bactéria, em sua forma mais simples, presente em alimentos contaminados, pode ser facilmente combatida com uma solução química barata e eficiente. Trata-se de um produto semelhante ao sal de cozinha, entretanto – e por isso não basta – cristalino, inodoro e incolor.

O salitre é um composto químico obtido do nitrato de sódio e utilizado na indústria de alimentos para preservar as características primarias dos enlatados e embutidos. Infelizmente, o ser humano em sua essência não esbanja coragem e coletivismo, mas, preguiça e medo!

Dessa forma a bactéria na forma mais complexa, infiltrada em sociedades habitualmente passivas, não teme o contato com a substância antitóxica. Aliás – que sirva de alerta – o consumo excessivo de alimentos contendo salitre provoca uma sensação maior de saciedade!

Em paralelo, o carvão vegetal é uma substância obtida pela carbonização da madeira ou lenha. Tem poder de combustão moderado e é comumente utilizado como fluído para aquecedores, plebiscitos, manifestações e fogões a lenha, só que, isolado, não combate toxinas.

Já o enxofre é um ametal de coloração amarela. E também o homem comum, alienado. Mole, frágil e leve. Desprende um odor característico de ovo podre ao misturar-se com o hidrogênio. É insolúvel em água e aglomerações públicas, mas, parcialmente solúvel em álcool etílico.

Essas substâncias, separadas, não representam qualquer eficácia no combate ao botulismo. Mas o salitre, o carvão e o enxofre, quando misturados na proporção perfeita, transformam-se em uma nova fórmula, explosiva! E consistente, capaz de aquecer e iluminar toda uma nação.

A pólvora produz uma onda de deflagração subsônica, ao contrário dos altos explosivos que geram uma onda de detonação supersônica. Isso reduz o pico de pressão na explosão, tornando-a menos capacitada a destruir rochas ou fortificações. A não ser que compactada!

E em grande volume. E em pontos estratégicos. Em vários lugares. Ao mesmo tempo! A pólvora, quando em milhões de grãos, marchando com substância e com foco, cheirando ou não a vinagre, causa um estouro avassalador. Aniquilando fortificações. E o botulismo.


sábado, 15 de junho de 2013

Reflexões Ante Um Reflexo

                                                                                                Arte:: Peter Paul Rubens

Escute aqui meu chapa! É, você mesmo! E me olhe nos olhos quando lhe dirijo a palavra: Você sabe quem eu sou? Digo, faz ideia de com quem está falando? – Aproveite que ainda lhe trato com respeito e me responda com total clareza: Me desdenha, mas, sabe quem sou eu?

Claro que não... Você não sabe de nada! É um perfeito desinformado! Me devolve essa cara de interrogação e o sorriso constrangido dos que preferiam não passar por isso. Pois daqui você não sai, colega! Ao menos até que diga, de boca cheia, se sabe com quem está falando!

Soube que cochicha às minhas costas. É! E que calunia-me para pessoas que nem me conhece! Você, não me conhece! Acha que sim? Pois me olhe nos olhos e diga: Quem sou eu? – Você não diz... Nunca diz! Fica de boca muda, e murcha, buscando no horizonte algum amparo.

Olhe ao redor, somos só eu e você! Ao redor da gente, somos só eu. E você. Digo: Me diz! – E você insiste no silêncio. Frente a frente comigo, quando lhe obrigo ao que acha que sabe de mim, prefere o silêncio. E oferece os ombros, como se, subitamente, já não soubesse mais.

Mas vou lhe dizer o que penso, que também guardo em mim algumas impressões tuas! Você é um fraco. Um preguiçoso e um invejoso! Sim, esse é você! Me debocha pelo prazer e garantia de se ocultar dos holofotes. Aí as luzes se apagam e está tudo bem. Você é raso, parceiro!

Não sabe nada de mim, não é mesmo? Finge que sim, mas é só para facilitar sua vida... Meu bom amigo, te pergunto mais uma vez apenas: Você sabe com quem está falando? – É sério! Procure me entender, tente ajudar e me diga, que não sei: Afinal, quem diabos sou eu?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Liberdade Custa Quanto?


Tudo o que se tem de disponível no mundo, tem um preço. Nem sempre temos a bala na agulha de poder pagar, mas, no leitor de código de barras do caixa, o custo está lá. Dividindo os homens dos meninos. Sou menino, gente que lê. E minha bala na agulha cheira a hortelã!

Não que me faça constrangido ou frustrado, mas, com grana no bolso, tudo tão mais fácil... As portas, paredes, janelas e a vida. Tão mais gostosamente fácil. E leve. Atualmente, tenho nada mais que minha consciência, levando esse peso. Leve no esforço, que, na essência, até treme!

Pesa uma tonelada, pelos débitos que carrega. Débitos imprescindíveis, mas que, se pudesse pagar, convertido nalgumas milhares de notas. Pilha pouca à pilha de nervos de se estar refém do capital. Pago! “Tudo o que se tem de disponível no mundo, tem um preço”. Parafraseio-me.

Um preço alto. Difícil de arcar... Um custo foda e cheio de taxas, que aumentam por todos os lados. Juros inversamente proporcionais ao fluxo da vida. A vida seca na mesma medida que a divida aumenta. Fluxo de caixa é coisa de gente grande. E minha chupeta sobra nesse texto!

Choro mimado à incompetência para a administração dos prazeres da vida. Ter prazer é coisa de burguês! Ser feliz também. A gente que é só gente, leva a vida como dá. Um dia de cada vez. No cardápio, farinha e fubá para dar sustância e aguentar o tranco. O corpo é ferramenta.

Somos máquinas. Androides laborais. Somos quase inumanos. Mas a gente sonha. E sonha porque faz bem. Revigora. Mas sonha sem fé. Porque fé faz bem apenas para quem tem tempo. Temos tempo para nada. A fome bate. A urgência. O dia seguinte e a responsa. Ê vida!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Última Bolha de Oxigênio


Nada! Agita o corpo como pode e prende a respiração. Não para! Sacode os braços e as pernas. Resiste até que a cãibra o vença. Dance os membros na grande sopa oceânica e nada! Nada pela vida, meu chapa, senão da vida sobra nada! E não se nada no nada. Se faz é nada lá!

Tem pulmão? Nada! Estufa o peito feito bexiga e deixa a cargo da maré. Desiste não, que para chegar ao chão tem água a beça. E tubarão. É fundo. O buraco do mundo é fundo e frio. E solo bom é linha reta. Lá mais longe que a vista vê! Rema esse barco de si que é só o que te resta.

E “só o que te resta” é tudo o que você tem! Não pense que é pouco. O pouco que sobra ainda é um tudo. E tudo é nada, ao contrário. Nada! Se já nadou isso tudo, nada mais! Nada para frente, não olha para trás. Que o passado te traz, âncoras de ferro. E memórias enferrujadas.

Lembranças frescas do naufrágio. Teu barco pesava e não aguentou. Agora é contigo. Nada leve, marujo! Sem nada. A terra firme te aguarda, lá na ponta do horizonte. Aguenta firme e nada, que a tormenta úmida do mar, será coisa mínima na ilha aonde o corpo irá se renovar.

Pensa que é o único jeito. De ter chão. Repita em mantra que: Cada braçada a mais, é uma braçada a menos. Mantenha o prumo, nadador, que logo desponta um micro ponto verde nessa imensidão azul. E aí, é logo ali. Bem junto de onde estamos todos. Secos, sãos e salvos.

À sua espera, para acabar com a solidão, e com o desamparo do mar. Nada! Nada mais! Nada tudo, que falta pouco! E mesmo que o corpo se entregue, muito longe da costa, desiste nunca. Ainda que comece a afundar, encha o peito de vida, até a última bolha de oxigênio.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Deixo o Braço


Estendo a mão. Lá embaixo um precipício. Estico os dedos com toda a minha força, estão quase se desmembrando. Olhando de perto, bem perto, é possível ver as falanges soltas. Bobas e flácidas sob a pele. O braço formigando range e causa desconforto. Não desisto.

As veias do pescoço evidenciam a força sobre-humana que aplico para te alcançar. Desafio os limites da minha elasticidade. Desloco ombro e cotovelo. Ganho três ou quatro centímetros. Bastam. Suas mãos tocam finalmente as minhas. Unem-se com força e com liga.

Um alívio despenca, afinal, para o infinito do precipício. Você não. Você se agarra ao meu braço, morto. Inerte e bambo feito cipó. Sinto os ossos da mão se confundirem entre si. Sinto o calor do teu corpo, abraçado ao meu braço. Não tenha medo, vem! Que agora é só subir.

Escale com cuidado a corda epidérmica, antes que rompa. No alto do bíceps, sinto as fibras do músculo rompendo-se uma a uma. São poucas, tome cuidado. Não resta muito tempo, vem! O tendão supertensionado estoura e treme o corpo todo. Não solte agora, já quase no topo!

A pele pálida, feito bala de goma, reserva todos os ossos em uma grotesca bolsa, na extremidade inferior. Isso pesa e diminui o seu tempo, vem logo! O sangue, grosso e quente que emerge do ombro, provoca uma cachoeira viscosa e deslizante. Se agarre com mais força!

Pronto! Já pode relaxar. Descanse e se recomponha. Deite-se ao meu lado e desfrute da sobrevivência. Respire fundo que o pior já passou. Agora me ajuda com isso que incomoda. Arranque! Um braço, a pele necrosada e escorrida é nada, se você com vida ao meu lado.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Estigma da Idade



Tenho o hábito de observar os velhos. Não com admiração nem, tampouco, desprezo. Apenas com atenção, tentando aprender um algo qualquer sobre meu futuro próximo. E digo que são velhos porque me ensinaram na vida que existem dois tipos de gente: os novos e os velhos.

O conceito que tenho sobre a idade que têm os velhos, vem mudando a cada ano e hoje, que beiro os trinta, velhos são os bem velhinhos, como seus cabelos brancos, suas vozes roucas e seus movimentos lentos e arrastados. Penso em velho e é essa imagem que me vem à cabeça.

A ideia que faço do futuro não é lá muito animadora, sei. Gosto da pressa e do frenesi da vida. Me acostumei ao ritmo das coisas “em cima da hora”, vai ser difícil se adaptar. Quando eu era muito jovem, achava que velhos eram nossos pais. Os adultos e suas responsabilidades.

Já tenho quase a idade que tinha meu pai quando eu pensava assim, nem um terço de suas responsabilidades. E ele, hoje, rejuvenesceu. Velhos são os bem velhinhos, cansados e com sono. Cruzei um desses no trânsito hoje. Velhinho mesmo! De óculos de sol e a cem por hora.

Me ultrapassou todo esbaforido. Boné para trás, cigarro na boca e camiseta regata. Juro, mais de oitenta nas costas e costurando garotões no trânsito. Confesso que me senti ofendido, ora, ultrapassado por um velho! Um VELHO! Demorei para entender e enxergar um futuro melhor!

Um futuro onde a idade pesa menos que o pé no acelerador. Aí tentei acelerar atrás daquele velho, para agradecê-lo pela esperança de um futuro menos inválido. Mas esbarrei na pressa que tinha em levar os resultados dos meus exames ao ortopedista. Doem minhas articulações.

Aos trinta anos, velho. Desloquei o ombro e o quadril. Tornozelo luxado e artrose no joelho. Acho que nunca vou alcançar aquele velho... 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sobre as Ideias




Não é que me escapem, não, elas estão lá! Caprichosamente escondidas em algum lugar nebuloso e turvo da minha cabeça. Não sempre, eu seria injusto. Apenas quando lhes soa conveniente. E eu costumo achar graça da conveniência coincidir com meu momento literário.

Ultimamente, basta concentrar-me à tela. Esse imenso quadro branco e luminoso diante de mim com seu cursor que pisca e me pressiona, como se contasse o tempo ocioso. Nenhum verbo ou ação. Já reparou que, enquanto a gente escreve, o maldito cursor desaparece?

Por isso meu alívio mais sincero e meu lema à digitação: Exterminar o cursor! – Mas como, quando as ideias não vêm? Especialmente sabendo que estão por aí, sorrateiras e melindrosas na grande planície baldia do meu crânio. Só de pensar fico ainda mais anuviado. E oco.

Virou obrigação! Talvez seja essa a epifania do dia: Escrever virou obrigação! Ao menos deixou de ser um simples e egocêntrico hobby. Estabeleci metas. Metas chatas e enfadonhas que sufocam a liberdade criativa. Ao mesmo tempo, metas que me mantêm ativo e responsável.

O que acontece é que minha cabeça e eu encaramos muitas coisas de forma diferente. Ela é mais lírica enquanto eu, prático. Deve ser por isso que venho enfrentando com frequência a traquinagem amnésica dela, escondendo as boas ideias do dia no submundo do consciente.

Tentando me ocupar a vida com mais lirismo. E é de se espantar como fervilho nos horários mais inoportunos e impossíveis do dia. As ideias surgem, ressurgem, se cruzam e se mesclam. É quase um baile veneziano de trinta pares, impecável. Se eu abandonasse o praticismo...

Mas, conscientemente, sacaneio minha cabeça e, enquanto ela teima em evaporar as ideias que já são, essencialmente, minhas, dissimulo o desespero da falta de assunto e escrevo, descaradamente, sobre como é estar, absolutamente, sem ideias!