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domingo, 21 de abril de 2013

Somos Mammuth



Há dois lados para tudo nessa vida e dois lados apenas. Poucos arriscam contradizer a eterna máxima do sim e do não, mas, cá estou eu, afirmando, ou melhor, fofocando a verdade alheia que, entre duas sugestões opostas existe uma verdade torta e fantástica que, vale a pena.

Mammuth é um filme de 2010 e, informação mais irrelevante que eu poderia apresentar, pois, Mammuth é um filme atemporal, que funciona em qualquer momento, desde que no momento certo. Do tipo que ocupa sessão particularmente específica nas vídeo-locadoras.

“Filmes para a hora certa” – Por isso a elucubração do início, para a terceira verdade de uma coisa qualquer. Costumam garantir que o mundo é 50%, mas, não no cinema. Mammuth, é o que tento lhes dizer, não é filme bom tal qual não é filme ruim, em absoluto. É outra coisa!

Filme que te toca no abismo mais profundo da alma, ou que embala o sono nos primeiros dez minutos. E não se trata de esforço, a obra de Gustave de Kervern e Benoît Delépine é crua e insípida aos olhos desatentos, tão leve que só os sufocados se agonizam com Serge Pilardosse.

Porque sentem-se da mesma forma errantes, diante do sistema imparável da vida. A vida simplesmente não para e as merdas passadas nos seguem aonde quer que estejamos. Tentando nos mostrar que o futuro é o mais puro e incontestável resultado do passado.

Mas seguimos adiante, assumindo que nossos erros estarão sempre nos assombrando os sonhos, mas, nem por isso, nos privando de seguir a vida. Errando e acertando com a mesma inocência adolescente de sempre. Todos os dias, como se fosse a primeira vez.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As Aventuras (Piratas) de Pi



O filme que mais me intrigou nos últimos tempos! Isso eu descobri logo. Mas quando tive o primeiro contato, numa resenha de revista, tive a certeza que não era um filme para mim. Nem terminei a matéria. Uns dias depois meu pai se mostrou interessado e perguntou a respeito.

Não pude ajuda-lo, já que ignorei a obra completamente. Estava decidido que “As Aventuras de Pi” não seriam aventuras minhas. Porém, em pouco tempo (e Facebook está lá para isso), começaram os comentários positivos sobre o filme que eu estava certo de ser pura insosses.

Sinestésico e lírico demais. Uma overdose de efeitos especiais magníficos que serviriam apenas para promover alguma tecnologia determinante ao futuro do cinema. Uma ode às exibições 3D, provavelmente. Como é que tanta gente diferente poderia se encantar com aquilo?

Levei um tempo para aceitar minha obrigação com o menino Pi e precisei de algum encorajamento mais vigoroso dos que confio na sétima arte e que, também se ofereceram a Ang Lee. Cineasta que, confesso, abandonei no limbo por pura divergência conceitual.

Digo, preconceito mesmo! Assisti ao “O Tigre e o Dragão” há mil anos e nem arrisquei seu “Hulk”, depois disso. E ainda deixei passar “Brokeback” (pois é) que imagino ser sua redenção! Pi surgia carregado do mesmo preconceito estúpido, entretanto, após tanta exaltação, topei!

Seria no compromisso semanal de cinema, proposto anteriormente, só que, devido algumas adversidades, teve de ser em casa, escusamente pirateado da internet. Uma vergonha que admito aqui, porém, punido por um download dublado e por outro gravado direto do cinema.

Não arrisquei um terceiro download porque achei justa a baixa qualidade, já que clandestino! Perdi toda a beleza estética para poder focar exclusivamente na história. Primorosa, aliás. Não à toa tanto êxtase aos que puderam contemplar na telona uma das mais belas fábulas.

E eis aí o motivo do texto (e eu já sentia cheiro disso quando aceitei assistir): O filme, em trailers e resenhas e sinopses oficiais, falha por evidenciar apenas a inovação high tech da coisa. Tem uma história muito mais deslumbrante por trás dos efeitos, ou melhor, à frente!

“As Aventuras de Pi” está, tranquilamente, entre os melhores filmes de fantasia já feito. Sei que digo isso ainda de prateleira vazia, mas, por outro lado, seguro de não estar equivocado! E se cabe uma dica: assista logo! Só que dica melhor: Veja no cinema que pirateado é fria!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Um Filme Ruim de Vez em Quando


Às vezes é bom, para dar uma variada, assistir a um filme ruim no cinema. Antes eu achava que não, que o tempo era muito precioso e que meu intelecto merecia mais! Que bobagem! Filme ruim é exercício mais estimulante que as elucubrações óbvias de uma obra prima.

Faz bem, para a preguiça que paira, o esforço em entender “onde diabos o diretor pretendia chegar”. E praticar o senso crítico, de vez em quando. Mas cinema, sempre na telona! Não se arrisque a um filme ruim no conforto da TV que o controle está logo ali. Dedicação absoluta!

Estive há pouco no cinema. “Paris-Manhattan”, exemplo perfeito de um ótimo filme ruim. Ótimo porque uma pena, a premissa era boa: Uma mulher obcecada pela sétima arte e, especialmente, por Woody Allen. Solteirona convicta, família disfuncional e par antipríncipe.

O mote principal é a família tentando arrumar um marido para a protagonista enquanto ela escuta, no silêncio do seu quarto, conselhos em off, extraídos dos filmes do Woody Allen, narrados pelo próprio. Podia funcionar, se não esbarrasse em tanta falta de dinamismo.

Comédia romântica. O anticinema do bom cinema. Difícil tirar boa coisa daí! Comédia romântica francesa. Acho que não dá... Francês é muito bom no romance, é muito bom na comédia, só que talvez não tenha aprendido a misturar as coisas ainda. Por isso, que pena!

Saí da sala frustrado. Eu, e quem estava comigo. Tentando descobrir a razão dos personagens secundários (alguns, tão misteriosos, que surgiram e desapareceram da mesma forma) e, acima de tudo, tentando entender como foi que Woody Allen topou participar dessa salada!

A diretora, Sophie Lellouche, não tem nenhuma expressividade na área já que debutou com "Paris-Manhatan". O oposto poderia justificar o interesse de Woody. O próprio Woody não tem nenhuma participação na produção do filme. Talvez uma simples homenagem ao artista.

Mal sucedida e destemperada. O tipo de filme que acabará eliminado da minha memória. Mas indispensável no hall dos bons filmes ruins. Aqueles que poderiam ter chegado lá, se não tropeçassem nalgum lugar entre as letras do roteirista, a lente do diretor e os cortes do editor.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Os Amores Imaginários de Xavier Dolan


Depois de uma fracassada tentativa de escrever sobre dez filmes em uma mesma crítica, volto bem menos pretencioso, e apoiado na facilidade em dissertar sobre “Amores Imaginários”, de Xavier Dolan. Um filme fantástico, e chego lá, mas Xavier, um menino, simplesmente gênio!

Quando me comprometi ao filme de hoje, para tirar o atraso das telonas, apenas acessei a página do cinema e escolhi qualquer filme estrangeiro que pudesse me surpreender. Para diminuir os riscos, vi o trailer e, como sempre, me vendi ao prelúdio de um minuto e meio.

Mas ainda não sabia se tratar de Xavier, nem o reconheci no trailer. Embora já o conhecesse de “Eu Matei a Minha Mãe”, filme de 2009. E de quando o tal menino (diretor e protagonista) tinha vinte aninhos. Na época um algo me chamou muito a atenção na condução do filme.

A forma diferente e clíptica de enquadrar as cenas. O cenário, de modo geral, é muito intenso, em cores, figurino, objetos e toda a composição. Em “Amores Imaginários”, filmado um ano depois, o conceito se concretiza. Xavier consegue reinventar a forma sem mudar as regras.

Seus filmes em si não são diferentes do que já vimos mais de uma vez, nas lentes dos grandes e pequenos da sétima arte. Mas a sutileza com que ele consegue impor um novo olhar, decididamente mais moderno, restabelece a paz ao instável futuro cinematográfico.

Por isso exalto Xavier Dolan a mártir de uma geração de cineastas que ainda estão por vir. Aos vinte e dois anos já dirigiu três filmes “(Laurence Anyways” aparentemente está por vir) e em pelo menos dois, garantiu-se três degraus acima da média produzida por aí ultimamente.

Obviamente não se trata de uma nova ordem de filmes, mas Xavier encabeça uma das mil e uma vertentes que o cinema oferece. Pela brilhante sensibilidade de enquadramento, pela precisa sobreposição da trilha sonora (mérito dele por dedução minha) e ainda mais.

Pela delicadeza em tratar a sexualidade com a simplicidade natural do homem. Homo ou hetero. Sem a pretensa rebeldia do homo ou a exacerbada vulgaridade do hetero. Sexo como é: Desengonçado, sensual, inseguro, selvagem, doce e humano. Simplesmente humano, afinal.

Dolan não defende sua sexualidade nos filmes, mas a sexualidade nos filmes. E cores. E referências pop e dinamismo. Sim, há um dinamismo em seu roteiro, claro e meticuloso. Textos fortes, ácidos. As cenas se fundem em áudio e vídeo, invadindo-se deliberadamente.

Mas ah, “Amores Imaginários”! Como forma de redenção e sem nenhuma pretensão... Creio que tarde demais! De qualquer forma, o filme é apenas uma obra impecável, indispensável aos que respeitam novas formas de reinventar o conhecido. E nada mais que isso!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Hollywood em Nove



É noite de Oscar e eu mantenho minha mais consistente característica: Deixar para a última hora tudo aquilo que eu posso deixar para a última hora. Nesse caso, a resenha sobre os filmes indicados à premiação americana do cinema. Todos eles, melhores filmes, pretensos.

Já é tarde da noite e acabo de voltar do cinema onde assisti as duas obras que faltavam. Quais não importa. Aliás, não me encanta a ideia de pontuar um melhor filme dentre os mais de mil produzidos no ano, mas, vou brincar disso, com toda a minha pretensão cinéfila-amadora.

Então, começo de trás para frente, com o pior deles, porque assim gera alguma expectativa (quiçá positiva) à arrogância do meu texto. Steven Spielberg, o grande mago de outrora deu um tiro na água (que ricocheteou numa pedra e acertou o próprio pé) em Cavalo de Guerra.

O filme é insosso e fraco. Não desenvolve ou convence, com seus clichês românticos e fotografia artificial. As cenas de guerra parecem um balé bêbado e as atuações pecam. Difícil aceitar que o Spielberg em pessoa assinou aquilo, sem ter perdido uma aposta no pôquer.

Todos os próximos quatro filmes, são superiores ao pangaré do Spielberg mas equivalentes e médios. O Homem que Mudou o Jogo é a América que Hollywood cospe! Risco, superação, honra, vitória e uma bandeira americana. Filme-pipoca, bom para domingo e segunda a noite!

Os Descendentes dá uma perspectiva diferente sobre o povo havaiano e isso me agradou bastante no início, mas deixando isso de lado, o drama familiar que norteia o filme poderia ter sido narrado de qualquer lugar do planeta! Méritos indiscutíveis à trilha, precisa e delicada.

Então uma mistura arrebatadora nasce para ser o possível grande clichê oscarítico da noite: 11 de setembro e Tom Hanks! Tão Forte e Tão Perto podia ser isso, mas, Stephen Daldry decidiu algo mais sutil, focando o garoto que, contra todos, afirmo petulante que sustentou o papel!

E tais quais os dois indicados anteriores (e também o próximo), a obra de Daldry é simplista demais em sua narrativa e permite que os clichês determinem o desenrolar da história. Como em Vidas Cruzadas que, entretanto, é a única boa surpresa entre os médios.

Eu poderia entrar nos detalhes do filme, mas, vou ser eu mesmo e fazer tudo errado, dizendo da brilhantíssima atuação de Viola Davis, uma empregada doméstica negra, no Mississipi dos anos 60. O enredo é descarado no que diz respeito às relações entre o bem e o mal, mas vale.

E agora, finalmente, os quatro principais filmes, que não me desapontariam, caso ganhem (é sério, eu choro nessas coisas). Em primeiro lugar (ou quarto, fiquei confuso) coloco O Artista, que tem a ousadia de montar um filme mudo sobre o início do cinema falado em Hollywood.

Mas por perder duas ou três oportunidades de ser realmente inovador (frustrações minhas, sobre o que eu preferia que tivesse acontecido entre uma cena e outra), deixo-o fora do meu pódio sem gabarito e particular. Apesar de, possivelmente, levar o troféu no fim da noite.

A Invenção de Hugo Cabret, do Scorsese é meu tipo de filme! Doce, fantástico (substantivo, não adjetivo), inspirador e sensível. Seria meu voto, confiante, especialmente pelo Papa Georges (o pai da coisa, não Ben Kingsley), não fossem os outros dois filmes.

Meia Noite em Paris, o roteiro mais divertido e saboroso que pude ver exposto na telona (embora confesso a culpa da telinha), nos últimos tempos, me divertiu e surpreendeu em cada cena e cada reviravolta. Aliás, a cada novo filme, me culpo pelo respeito tardio (há tempo) a Woody Allen.

E por último, mas, em primeiro (é realmente confuso inverter a ordem das coisas!), reverencio A Árvore da Vida. O filme que me ferveu o sangue e toda a água do corpo durante as duas horas mais sinestésicas do cinema americano, ano passado.

Quando assisti àquela desconstrução de roteiro e aquelas imagens avulsas preenchidas por um texto emblemático e lírico, percebi que tratava-se da maior ruptura estilística da grande indústria cinematográfica do mundo! E admirei a indicação, mas não creio que venha a vencer.

E é fácil dizer a razão: Não tem o perfil da academia, sempre tão previsível. Mas também, principalmente, porque apenas eu e a família Malick acreditamos nessa possibilidade. Que, com esperança, tendo a mesma indiferença a respeito do resultado na manhã de amanhã.

Mas, acima disso e da besteira de determinar melhores e piores de qualquer coisa, é bom que o cinema continue aí, produzindo, provocando, inspirando. Fazendo rir e chorar. Mexendo conosco tão intimamente, mesmo tão distante. Arte, quem define? Mesmo em hollywood.

domingo, 13 de novembro de 2011

Duplo e Sem Gelo



Acabo de ser tele transportado para o universo bizarro e belo de Almodóvar. E ainda não voltei! Aliás, nem sei se volto porque, também, não sei se quero. Quanta raiva! Essa loucura poética (qual não?) e tão bem administrada que busco, incessante, feito o graal de mim.

Pedro Almodóvar, entre acertos e muito poucos erros é, no cinema, aquilo que eu queria deixar impresso e assinado. A bizarrice tão improvável e insana quanto livre e exata. Almodóvar brinca com os limites da invenção como se à exclusiva ingestão de antipsicóticos!

Chivas com Haldol, por favor! Duplo e sem gelo... Para compreender mas, mais que isso, estar lá dentro. Se alimentando e se extasiando dessa criatividade desenfreada e intimíssima. Uma porta para Almodóvar. No melhor estilo John Malkovich de Kaufman (gênio para depois!).

Mas nem sempre assim. Em 1994, o primeiro encontro: Almodóvar, Eu, HBO e Kika. Total fracasso. Horror, desnorteamento, trauma e os treze próximos anos sem estômago para o diretor. Mas, pobre de mim, só dez anos e previa apenas peitos desnudos e roupa de couro.

Nunca me atrevi a dar nova oportunidade à sofrida Kika, mas, em Volver superei o preconceito, alcançando o mínimo interpretativo que Pedrinho esperava de mim. E levei muitos minutos cego que Maura era de fato um espírito (spoiler?). Eu estava aprendendo...

Fora da sala o encanto tardio pelas pirações sufocantes do diretor abriram as portas para Má Educação, Tudo Sobre Minha Mãe, Abraços Partidos (único renegado) e o impecável Fale com Ela. Que cedeu o posto de obra prima hoje, para A Pele que Habito pois, obra máxima!

E eu cheio de melindres... Porque até então, Almodóvar não era unanimidade. Ainda havia a memória turva de Kika e a frustração recente de Abraços Partidos. E críticas recentes sobre o desatino da nova obra me deixaram temeroso. E não menos confuso pela classificação: Terror!

Mas não cedi aos alertas e, que bela surpresa, a melhor oferta que esse espanhol perturbado já me fez! O filme trata de muitas coisas, trata, de certa forma, até das mesmas coisas. Trata-se de um autêntico Almodóvar, mas não, não se trata de terror em nenhuma instância. É mais!

Antonio Banderas é um cirurgião plástico com muitos motivos para ter a personalidade que tem. Marília, sua governanta e braço direito é o perfeito Fritz (de Frankenstein) e o resto, bem, o resto é a previsível e adorável sucessão de surpresas tão almodovarianas que só ele mesmo!

E novo em mim, esse encantamento pela direção de um filme. Porque eu, sempre mais verbal ao visual, era de Kaufman à Jonze, por exemplo. Mas se somos com quem nos relacionamos, assumo agora a unanimidade de Almodóvar! Da seleta classe dos tão bons que invejo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Projeta Brasil e os Reis da Areia




Muitas das boas iniciativas culturais, pública ou privada, acabam esbarrando na falta de bom senso do principal alvo: o público! Eis que a rede Cinemark dedica um dia de sua programação para exibir filmes brasileiros a preços mais que populares (R$2). Incentivo puro!

A campanha Projeta Brasil acaba de cumprir seu décimo segundo ano e deve ser a quarta ou quinta que eu participo. Quase sempre a decisão é de última hora, considerando o delicado dia da oferta: segunda-feira! Entretanto hoje, dia sete, estive eu na poltrona da unidade campineira.

Pela decisão súbita, com menos de trinta minutos para o início do filme, me preparei para enfrentar emoções guérreas nos corredores do shopping. Previ filas longas, muito barulho e problemas para estacionar o carro. Curiosamente, foi só o que funcionou. Além do filme, em si!

Capitães de Areia, a propósito, de Cecília Amado, mas eu já chego lá. Por enquanto as assombrosas surpresas da chuvosa noite do Projeta Brasil. Tudo foi bem no inicio, como já antecipei. Carro bem estacionado, ingresso comprado e assentos livres em todos os cantos.

Logo que as luzes se apagaram, reparei um barulhinho chato de pessoas que, descalças, despreocupavam-se com os demais contando amenidades do dia e da chuva. Pensei: Será difícil! Mas logo o áudio atropelou os timbres inúteis e pude me dedicar apenas à tela branca.

A publicidade veio direto à tela e frustrei-me com a falta de trailer (isso não se faz, eu quero trailer, muitos trailers!), mas tudo bem, eu confiava na obra, que viesse logo! Mas de tão logo, surpreendeu os menos apressados que, com o filme começado, decidiram finalmente entrar.

Nos primeiros dez minutos de filmes entrou mais gente na sala que nos trinta que antecedeu o início. Mas sem crise, não quero ser o tipo de ranzinza que, inclusive, não cede passagem (já estive no lado de lá da situação (sempre, aliás! (embora, me defendo, só durante os trailers!))).

Enfim, todos posicionados e, minha estratégia de sentar-se à frente de uma poltrona vazia para não ser chutado durante a sessão foi por terra, a sala encheu! Durante o acomodamento já tinham me chutado duas vezes! Até aí apenas um desafio à minha tolerância, sempre fui!

Porém, algo me desconcentrou: “Como chama o filme, amor?” - perguntou uma desavisada. “Os reis da areia” – confiou o namorado. DEUS! O NOME APARECEU FAZ CINCO MINUTOS! E ESTÁ IMPRESSO NO INGRESSO! E VOCÊS TIVERAM QUE PEDIR À BILHETEIRA! Como faz isso?

Mas logo eles cessaram a conversa paralela e, junto comigo, se entregaram a Pedro Bala e seus Reis da areia, digo Capitães! A obra, aliás, figurou na minha interminável e compulsivamente renovável lista fílmica há pouco, mas, nos desencontramos entre uma pipoca e outra.

Por sorte tive essa oportunidade e, terrores à parte, apresentava-se à pena válida! É uma história muito baiana, do painho Jorge Amado (e eu devia ter lido mais Jorge, pelo menos um Jorge. Mas, admito, sou um fracasso!) e retrata meninos malandros crescendo nas ruas.

O bando, liderado por Pedro Bala é uma espécie de família/comunidade marginal que precisa lidar com conflitos infantis, juvenis e adultos ao mesmo tempo. Têm sua estrutura abalada em dois momentos: Durante a epidemia da Varíola e quando a primeira menina entra no grupo.

A primeira situação desencadeia uma ruptura que afetará o eixo do grupo bem lá na frente e a segunda dá substância e contexto adolescente à trama, além de provocar um inevitável triângulo amoroso, mas não machadiano, apenas adolescente e complacente. Nada corrosivo.

A direção de Cecília (neta do homem, diga-se de passagem) é bastante primorosa e convincente. Não sei se dirigiu outro algo que eu tenha vista (e estou com uma preguiça de descobrir...), mas apenas por Capitães de Areia, garante meu voto de confiança para o futuro.

Por um lado parece fácil dirigir uma história que pôde ser contada pelo próprio autor, querido. Por outro, está estampado na tela o cuidado com uma Bahia lindamente descuidada, dos anos 50. A fotografia é linda, os cenários. As impressões e expressões dos personagens.

Mas de pecado, apenas a atuação. Algumas! Jean Luís Amorim tem uma feição incontestável para o papel do Pedro Bala, mas verbalmente demora a crescer e o texto enrosca em insegurança. Jordan Mateus e Israel Gouvêia vão bastante bem com Boa Vida e Sem Pernas.

Mas é Ana Graciela que segura a melhor atuação mirim. Acaba também denunciando algumas falhas de insegurança, mas, que não prejudica o personagem. E até Zéu Britto, figuríssima do cenário músico/cênico nordestino frustra com um pequeno papel e uma atuação discreta.

E a trilha, coordenada e maestrada pelo maior expoente da música baiana, Carlinhos Brown, vai muito bem! Entre cânticos no universo africano sampleados, sambas de raiz (entoado por Zéu Britto) e o tom grave de Arnaldo Antunes, a trilha sonora é uma pérola à parte!

Mas aí o filme que já havia convencido, resgatado em mim um amor abalado por uma Bahia hipotética de outros carnavais, e atingia momentos de clímax. Quando o terror voltou a sondar! No ápice do drama, durante a execução de um ritual de candomblé, o improvável:

Um ímbecil lá de trás da sala, totalmente equivocado, começa a gargalhar como se assistisse a um filme completamente diferente, debochando ignorantemente de uma cultura riquíssima do nosso país e incitando outros idiotas a aceitar o riso alheio como graça instituída.

Seria covardia duelar de qualquer jeito com uma toupeira desse calibre (só se xingando muito no twitter!), por isso, respirei fundo e me concentrei no fim do filme. Que acabou bem, felizmente. Não bem BEM, mas bem, com méritos! Aí, lancei ouvidos nas impressões alheias.

“Não sei, mas filme (falado) em português não convence!”, ou “Não é um filme de cinema. É ótimo, mas se tivesse custado mais eu nem vinha!” – Interrompi a investida chocado, constatando que, a iniciativa é boa e o resto, pura boa vontade! Chato aqui, só eu!

domingo, 30 de outubro de 2011

Respeitável, Público

 
Olá domingo, olá cinema! Dia de colocar os pensamentos no lugar, as frustrações. Dia de se organizar para a semana que já chegou, abençoada no meio por um feriado que acabará como este domingo: Em cinema! E o que é que se tem para hoje: Pipoca, picadeiro e o Palhaço!

A nova peça fílmica de Selton Mello, direção e protagonização, é uma pérola, extraída delicadamente da ostra do óbvio. A história se passa em um interior mineiro da década de setenta (talvez) e narra o cotidiano de um pequeno circo onde Mello é o Palhaço-proprietário.

Insatisfeito com sua indefectível sina, Benjamin (Mello) começa o filme na rotina das suas apresentações com a trupe em cada cidadezinha que cruzam pelo caminho. Ele, como Pangaré e o pai/sócio, como o Palhaço Puro-sangue (Paulo José), lideram o modesto espetáculo.

O descontentamento está claro desde o início, mas, a magia da obra vem depois. Enquanto o dilema existencial nos é exposto cena a cena, o filme destila um excesso de pretensão que só os menos impacientes conseguem conceber como necessário ao contexto do personagem.

Fica evidente, de um momento específico em diante, que a falta de paixão do palhaço (que parece ser de Mello, ator e diretor) é a transparência absoluta da crise vivida por Benjamim. Enfraquecido pela falta de perspectiva e pelo desgosto à vocação (inerente a ele) pelo picadeiro.

Até que se rompa a burocratização do óbvio dilema do palhaço infeliz o filme não apresenta mais que uma bela fotografia rural e uma estranha obsessão do protagonista por um ventilador. Daí o aparente pretenciosismo barato. Mas eu queria que o filme fosse algo mais!

Por isso que quando Benjamim chega a Passos, o filme realmente caminha e ganha status de obra. Porque o sentimento ganha profundidade, e o personagem (e o ator e o diretor) ganha sentimento, e o filme ganha profundidade. Mas não entro em detalhes, não sou de fofoca.

Mello propôs divertidas participações como o irmão Danton, Ferrugem e um irreconhecível Jorge Loredo (ou Zé bonitinho) que, aliás, contribui precisamente para o ápice de Benjamim, enquanto conta algumas piadas na mesa do bar! É lá que o Palhaço sana de vez suas aflições.

A expectativa para O Palhaço era alta, justamente por isso o medo do fracasso tanto quanto. Mas por ironia de um típico domingo de sentimentalismos pessoais, de crises de passado, de presente e de futuro, a identificação foi total e a satisfação, confortavelmente, também.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um Dia Você se Dá Conta de que Eles Cresceram e Nada Mais Será Como Antes



Pois é, e logo vai acontecer de novo. Um dia terei de enfrentar essa constatação outra vez e, muito provavelmente numa causa mais nobre e íntima. Mesmo assim, a relação familiar, de encanto paternal e absoluto, que dediquei a esses “meninos”, é algo que... Findou-se, então.

Estive, depois de muita, mas muita expectativa, na Arena Anhembi, no último dia vinte e um de setembro, para prestigiar pela terceira vez, aquela que é a melhor banda de todos os tempos (no que posso medir). Não filhos meus, mas, em sentimento, a mesma clareza de afeto.

Explico: Conheci-os aos dez anos, enquanto debutavam no showbizz, enfiando em meus tímpanos seus primeiros sucessos mundiais (Give it Away e Under the Bridge). O rock era novo em mim. Suas doidices audiovisuais e a postura enérgica ferviam meu sangue pré-adolescente.

Era a abertura para o estilo que trilhou as fases mais marcantes da minha vida. E eles eram os responsáveis. E o vórtice musical que se abriu diante de mim depois deles! Acompanhei com a distância inocente e dispersa da infância a evolução deles e, no próximo álbum eu estava lá.

A essa altura eu já era tão fã quanto qualquer outro e compartilhei das mesmas impressões que todos eles, ao mesmo tempo, quando comprei aquele álbum vermelho, de capa perturbadoramente meiga na semana do lançamento. Foi meu primeiro álbum, meu xodó.

Alguns meses depois, fundido ao CD como uma espécie de walkman literal, me orgulhava ser reconhecido na rua pela devoção. Na extinta e saudosa CD-Way, bastava eu entrar para que o simpático proprietário me introduzisse às novidades musicais e souvinéricas da banda. Eu!

Acabei crescendo e as necessidades foram se modificando e se preenchendo. Eu, agora, também me interessava por filmes, garotas, futebol e já ensaiava uma vida noturna (também conhecida como matinê). Mesmo assim havia espaço de sobra em meu santuário sociocultural.

No álbum a seguir, predominantemente azul, a popularidade da banda atingiu níveis pópicos e, pela primeira vez eu precisei justificar meu apreço Caxias. “Isso não é rock, os caras se venderam!” – Me diziam. “Vão vocês à merda!” – Era minha resposta, embasada e clara.

Em 2001, caiu do céu a informação que eles encerrariam o maior festival de rock desse país. Frase polêmica, entretanto, lá estavam eles no último dia do Rock in Rio e lá estavam eu, desde o meio dia em pé, só para vê-los de perto, pela primeira vez na vida. E também me veriam!

O evento divertidíssimo teve muitos altos e baixos. Uma infinidade de bandas, boas e ruins, e me rendeu boas e inesquecíveis memórias. Mas o show, aquele que deveria ter sido o show da minha vida, acabou uma apresentação apática e curta, quase dispensável, não fossem deuses.

Veio um novo disco e, novamente as críticas ao estilo cada vez mais subvertido ao pop. Foi nessa época que eu comecei a entender o que eu sentia por eles. Essa sensação paternal que é tão nítida para mim hoje. Os discos realmente não melhoravam, mas, tampouco pioravam.

O que acontecia era uma evolução natural. Inevitável. Como acontece com todos os filhos, que deixam a beleza pueril e maravilhosa da infância para se tornarem adolescentes problemáticos e histéricos. Amor de pai, dos pais, consegue tolerar com o mesmo carinho, esse martírio.

Um novo show me convidou, um ano e meio depois, a reencontra-los em São Paulo. O comportamento foi outro, como se minha agonia e ansiedade em uma apresentação digna de quem eles eram para mim. E, salvo todos os percalços, o melhor show da minha vida até ali!

Agora nada mais tinha que ser provado, nosso pacto estava concretizado. Enfim toda minha entrega havia sido recompensada. Depois, nossa relação atingiu uma fase estável, de confiança e cumplicidade. Eu não precisava ser surpreendido e eles quase não ousavam. Palco ou discos.

A última surpresa que tive veio na semana passada, no show. Aliás, desde aquele show de São Paulo, dois discos surgiram, um deles há poucas semanas. Nada de novo, embora nada daquilo que me encantou há dezoito anos. O som, por fim, acabou me fazendo entender e aceitar algo.

Mas, para explicar, volto ainda mais no tempo. Quando os conheci, já havia dez anos de banda e muita história boa. Muita música (ainda melhor) em três discos ousados e primorosos. Muito funk, psicodelia, energia, amor e Rock’n Roll. Nunca pretendi aquela fase para mim, e não era.

Meu momento com eles veio do encantamento de 1993 em diante. O resto foi só uma boa surpresa, descoberta pelo caminho. Como saber que o filho, ainda no ventre, é um pequeno gênio em seja lá o que for! Portanto, considerando uma banda com minha idade, só uma coisa:

Eu cheguei no meio do caminho e a história dos Chili Peppers, até agora, é dividida em três momentos: Primeira Fase, Período Clássico e Contemporâneo. Sou feliz de tê-los conhecido no Período Clássico, o mais bem sucedido deles. Mas hoje não pertenço mais a isso, ao futuro.

Por uma série de fatores sociais, naturais e temporais. Mas ter estado no último show. Mais do que a experiência introspectiva da solitariedade, percebi a quantidade de jovens que não tinham ouvidos enquanto eu já ouvia Blood Sugar Sex Magik. O momento, agora, é todo deles.

E não há turbulência. Ou crise. Só o que posso, é aceitar que os filhos crescem e não precisam mais da gente. Estão bem encaminhados na vida e têm, analogicamente, uma nova família para cuidar. O amor aqui continuará o mesmo, incondicional, mas, avô, na cadeira de balanço.

domingo, 8 de maio de 2011

Muito Prazer, Mí-ou-ní


Tudo bem que não dá para levar a sério um cara de outra dimensão, que voa, através do arco-íris, todo saradão, no meio do deserto mexicano e, logo de cara, flerta com uma Natalie Portman meteorologista, toda meiga e impetuosa. Mas dá pra se divertir muito com tudo isso!

A grande aventura começa perto das seis da tarde, com um convite inesperado: “Thor as dez no Cinemark” – Inesperado simplesmente por não esperar, porque sendo feito, só podia ter sido por quem foi, parceiro ávido e ativo da sétima arte. E sempre sucumbo à idoneidade.

Por isso, não fosse o incansável voto de confiança, Thor teria passado longe da minha lista de filmes. Pelo personagem, sem dúvida. Já não sou um grande entusiasta dos quadrinhos e, salvo Batman, Ironman e Watchmen, os dispensaria todos, até que enfim chegassem os Vingadores.

“Filme feito para fãs” – foi o incontestável argumento para rebater minha displicência heróica. A defesa nasceu de um inocente desabafo ao incrivelmente chato Hulk (readaptado) e se estendeu ao iminente Thor. Argumento pontual, deixo minhas desculpas ao monstro verde.

Tela em movimento, avalanche de trailers (não canso de gostar da expectativa proporcionada) e pronto! Fade in para o filho do trovão me convencer dos seus poderes mágicos. Poucos frames e o sorriso de Portman brilha intenso bem lá no fundo dos meus olhos. Thor quem?

E vão dizer que é a maldição do Oscar. Que bastou a estatueta para ela se meter em produções duvidosas (leia-se Halle Berry em Mulher Gato e Charlize Theron em Aeon Flux), pois defendo Thor como uma produção duvidosa de primeira! E a menina Natalie impecável.

Aliás é a doce liga do filme, a própria Ms. Portman. Mesmo dentro de um papel raso, ela extravasa carisma. De dispensável fica apenas o sempre dispensável romantismo hollywoodiano, entre ela e Thor (Spoiler?). De resto, boa ideia e ponto para Kenneth Branagh.

O diretor sabia que tinha uma bomba em potencial nas mãos. Empurrar Thor, um herói do segundo escalão, goela abaixo de expectadores desavisados como eu, não seria nada fácil. Por isso a grande sacada de fazer da obra, uma comédia sutil e sem exageros. Pipoca com coca!

Até o quase inédito Chris Hemsworth soube sustentar o papel que lhe cabia. A melhor personificação que consigo visualizar. À contra gosto, admito, estar tarde demais para Brad, um reles cinquentão. Não sugiro sequer o velho Odin, já que Hopkins é tão imbatível quanto o próprio sr. Pitt.

Mas acato à sugestão paralela do filme se passar todo em Asgard, sem a Terra. Faria bastante sentido um pouco mais de epicismo, Anthony Hopkins e Rene Russo (onde diabos ela tinha se metido?). E aquela dimensão dá um caldo. Loki, a trilha que leva ao portal dos mundos, o guardião e os Gigantes do gelo.

Thor é pouco, mas atende a uma proposta específica. “Filme feito para fãs” vira minha verdade absoluta. Natalie Portman tem minha carta de anuência para qualquer produção, chanchadas se quiser! Que venha Capitão América, os Vingadores, tudo. Ainda viro fã!

Alimentando a Fé



Filmes de terror não estão entre meus preferidos. O medo nunca foi uma necessidade fílmica para mim. Mas se pudesse escolher algo capaz de me assustar e despertar minha curiosidade, iria no terror católico, de demônios e descrença nas divindades. Isso sim.

Em “O Ritual”, Anthony Hopkins é um padre exorcista (desses que fazem o tipo gênio indomável, ignorando protocolos) que tem a tarefa de reascender a fé em um jovem seminarista em crise. E essa reconstrução da fé é minuciosa até para nós, expectadores.

As evidências apresentadas ao jovem Michael Kovak (Colin O'Donoghue, o seminarista) pelo padre Lucas (Hopkins) não o convencem tal qual não nos convencem. Parecem truques infantis e somos forçados a compactuar da descrença do pré-paroco.

Até que a frase mais forte do filme é lançada pelo próprio Dom Lucas: “Escolher não acreditar no diabo, não o protegerá dele” – Eis o meu dilema pessoal! A falta de fé no céu e no inferno não me exime do medo juvenil do desconhecido. E agora, meu Deus?

A única garantia que tenho da defesa aos ataques demoníacos, nas solitárias noites escuras do meu quarto, é a certeza de que nada disso existe. Aí vem um maldito padre Lucas e diz que isso não é suficiente para a proteção da minha inexistente alma? Ferrou!

Mas, no meio disso, interessante ponto de vista de Mikael Håfström (diretor sueco habituado às obras de terror) ao transformar um simples filme de exorcismo num thriller de angústia e dilemas. Não há fortes cenas de susto, nenhuma surpresa em volume alto.

Seria muito óbvio fazer dos takes nas sessões de exorcismo um ataque aos nossos ouvidos e coração, mas as cenas são apresentadas com rigorosa cautela, há um certo “prepare-se, é agora”. Isso faz de um medroso como eu, o expectador mais interessado.

Até que percebemos (presos à cadeira, músculos enrijecidos), não se tratar exatamente de um filme de terror, mas, de um desafio à fé nos dias atuais. A perda da força cristã na era da informação e auto-suficiência. Estamos no meio de uma transição histórica.

Como em “Merlim” que abordava a transição do mágico para o cristão na idade média. A chegada de Cristo enquanto a derrocada dos seres místicos (fadas, elfos e gnomos). “O Ritual” aborda com precisão essa crise que chegou ao clero vaticanês.

E Hopkins dispensa elogios, sempre. Mesma cara perturbada, personalidades distintas. Alicinha Braga com sua habitual beleza sulcada, segue com esmero os discretos passos hollywoodianos da tia. A atuação em “O Ritual” não é brilhante, mas pontual.

Porque o filme, no conjunto, não é brilhante. Inovador sim, uma nova cara para o terror, muito mais convidativo e emblemático, mas, como toda reinvenção de gênero, oferece alguns clichês e apenas abre precedentes para os próximos diretores o seguirem.

Já o interesse pelo resgate da fé é claro, mas, pelo meu orgulho cético, convenceu-me só por duas horas. Méritos pelo feito artístico/cristão! Por outro lado, viva a sétima arte porque, não fosse o asco a um tal Hannibal Lecter, Hopkins teria me jesuítado à igreja!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Coronel Nascimento: O Cavaleiro das Trevas


Saí agora de Tropa de Elite 2. Tão agora que talvez até esteja na sala ainda, juntando grãos de M&M´s que rolaram pelo chão. Estou extasiado (e vencido pela porção de confeitos de chocolate maior que minha gula). Extasiado porque o filme é uma obra densa e complexa.

O filme e o próprio Roberto Nascimento, agora promovido a Coronel. Outra roupagem para quase outro personagem. Ainda melhor. O Cel. Nascimento deste filme, já consagrado como o grande super-herói da ficção nacional, tornou-se completo com o segundo volume do filme.

Se antes, um bloco maciço e indestrutível de titânio, agora reflexivo e frágil ao reconhecer os limites da sua força. E fica fácil entender a trajetória do personagem (enquanto consolidação heróica) se considerar a construção de um super-herói tradicional. De Superman a Batman.

Quando surgiram, não tinham maior atributo que a invencibilidade. Tomavam seus sopapos e pontapés, mas, acabavam vencendo seus duelos, invariavelmente. Com o questionamento dos fãs, esses personagens foram se humanizando e adotando conflitos existenciais. Fraquezas.

Para o Cel. Nascimento não foi diferente. Em Tropa de Elite 2 o policial militar é, também, humano. Claro, sua carcaça titânica ainda permanece tão espessa quanto no primeiro filme. Mas aqui o soldado chora. E carrega toda a nação com suas aflições, difícil não compadecer.

O roteiro do filme é complexo (mas não confuso) e muito bem engendrado. Salvo a artificial narração da abertura e os momentos onde se confunde o que acontece com o que o Coronel esperava que acontecesse, o diálogo é impecável e vibrante. Flui bem do pesado ao divertido.

Não sei se melhor que a grande obra (na minha humilde opinião) que é Cidade de Deus, mas, indiscutivelmente melhor que o primeiro capítulo dessa história particular de guerra. Tropa de Elite 2 é um dos raros exemplos de superação na continuação. Me surpreendeu e convenceu.

De dispensável fica apenas o merchandising, cada vez mais embutido descaradamente nas obras nacionais. Fonte necessária de patrocínio, talvez. Mas precisam descobrir um meio de diluir a poluição publicitária entre os takes. Tropa dispensava, se pagará em bilheteria.

E o infalível Nascimento, mesmo com toda sua falta de moralismo e seus preconceitos pós-conceituados (é a história sob a ótica dele, afinal) também conquista com seu carisma de anti-herói turrão. Padilha acertou, Moura idem. Item de coleção. Próxima parada, DC Comics!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Salt! Bum! Pow! Soc!


É raro que eu me dedique à prática da crítica fílmica se não para sugerir algo bom de se assistir ou, pelo menos, de se ler ao assistido. E é bem do senso comum que falemos com mais propriedade daquilo que gostamos de falar e eu, bem, não sei exatamente o que dizer de Salt.

E começo meticuloso, eximindo-me da responsabilidade de dizer bem sobre algo que paira entre o difícil de aceitar e o improvável. Um algo que no mundo imaginário do Dr. Parnassus vá lá, mas no mundo onde vive John McClane, não há espaço para mirabolancias soviéticas.

Porém, até aqui ponto para Salt que soube ressuscitar com autoridade aquele sentimento agressivamente vingativo e paciencioso na Rússia vilã do cinema hollywoodiano. Quase dá saudade das alfinetadas politicamente incorretas do cinema a Ivan Drago e toda a cia soviética.

Fora isso um filme qualquer destes dedicados à testosterona, com muitas explosões, disparos de artilharia pesada e perseguição de carros. Passaria despercebido se estrelado por Vin Diesel. Só que, como aqui o hormônio é outro, há um tom controverso em cada golpe de Jolie.

Em paralelo, rezou em meus ouvidos, uma lenda de passarinho verde que dizia que o roteiro oficial de Salt seria de Tom Cruise, mas, recusado fora reformulado e entregue a Sra Smith, digo, Sra Pitt, digo, Angelina Jolie. Não muda o resultado, aliás, pioraria se com o Sr. Holmes.

E já vou pedindo desculpas por criticar tão negativamente sem qualquer base exemplificativa. É que, faz parte do meu código de ética descritivo, vetar qualquer comentário mais detalhado das cenas, evitando que possa tendenciar a experiência fílmica alheia.

Na verdade, esse deboche todo vem da incompetência do diretor para o fim, acreditem, saí da sala há mais de duas horas e ainda não vi o fim do filme! Uma dessas obras que insistem em recomeçar a história, na insegurança de apresentar um desfecho.

Honestamente, evoluí consideravelmente ao aceitar filmes com desfechos conceituais, mas não, Salt não pretendia nenhum conceito ao recriar um novo enredo a cada vinte minutos de exibição. Salt bebeu da fonte de A.I que, ainda hoje, procura o amor afetivo nos seres naturais.

Para encerrar, ouvi dizer que a Sandy twitou ainda ontem ter gostado de Salt, rebati que Sandy gosta até do Lucas Lima, mas, puro pedantismo o meu, desisti de entrar no mérito da questão. Azar no gosto cinematográfico, sorte no amor e na carreira musical, ofereço!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vive La France!


Decidi voltar momentaneamente às críticas. Uma vontade incontrolável de declarar ao mundo o poder da comédia francesa atual. E falo com autoridade, pois, não só uma, mas, duas surpresas adoráveis encheram meus olhos nos últimos dias e, preciso dizer: Vive La France!

Aliás, antes devo me redimir porque, à espera da primeira, o receio era maior que o desejo e, antes da segunda, a primeira parecia ter sido a sorte de uma boa obra ocasional. No fim da segunda, a constatação de que a comédia francesa é das mais divertidas e sensíveis do cinema.

E das boas coincidências, Kad Merad é o homem que une a duas obras. O ator, franco-argelino, estrela ambas. Como protagonista na primeira e coadjuvante na segunda. Não é um grande ator e nem parece ter essa pretensão, mas, confio nele como chanceler do cinema francês.

É que Merad não se importa em sustentar um filme sozinho e, assim, parece saber escolher roteiros que sustentam o filme por si só. Não é fácil ter essa percepção. Por isso, Merad entrou para o hall das personalidades que valem meus ingressos.

Mas bem, inicio com o primeiro: A Riviera não é aqui. O filme é de 2008 e só agora chegou às nossas poltronas. Trata de vidas divididas. Philippe Abrams (Merad) é um funcionário público em crise conjugal e, para tentar salvar o casamento tem a ideia de se transferir com a família.

Para tanto, tenta a mais cobiçada repartição dos correios na Riviera francesa. Mas por forjar seu pedido, é punido indo para o norte gélido e escuso. No início vai sozinho e o filme acaba por explorar esse distanciamento que, claro, parece fazer bem ao casamento deles.

Na verdade o que a gente percebe quando o set de filmagem migra para o temido norte, é uma singela homenagem do diretor e ator Dany Boon ao ponto mais discriminado da sua França, conhecida como a região do Ch’tis. Um povo hospitaleiro e amigo, que fala um dialeto bastante peculiar. E Dany declara: é um Ch’ti!

Os primeiros minutos do filme podem tentar decepcionar. A comédia tenta uma pastelice antiquada e previsível, mas, do momento em que Philippe entra no carro até o fim, surge uma das mais bonitas obras sobre amizade. Por sinal, a mesma base da outra deliciosa comédia.

O Pequeno Nicolau é um filme de 2009 e também pousou há pouco no Brasil. É baseada na obra infantil de René Goscinny (roteirista do Asterix) e lida com as coisas do mundo adulto sob a ótica infantil. Uma espécie de Calvin and Hobbes francês.

Qualquer película com crianças ingenuamente espertinhas tende a ser, ao menos, engraçadinha. É até covardia, vide: Valentim, The Goonies, Little Giants e afins. Mas o Pequeno Nicolau vai além. Sentencia a infância como a fase mais pura, divertida e marcante da vida.

O grande percalço aqui é Nicolau (junto da sua gangue) tentar evitar que seja abandonado pelos pais na floresta, depois que seu novo irmãozinho chegar. E a aflição se dá quando o menino faz associações furadas sobre a iminente chegada do suposto irmãozinho.

Cada personagem-mirim é minuciosamente bem construído e articulado, a história é delicada e provoca incansáveis suspiros. Sem falhas. Uma ode à fantasia e à imaginação infantil. Destaque para as cenas do Rolls Royce e da visita do Ministro da Educação ao colégio.

Pensando agora nas recentes experiências, concluo que Godard, Truffaut e sua Nouvelle Vague não definem o cinema francês e, meu sacrilégio cinematográfico se paga, satisfeito, nos frames de Dany Boon e Laurent Tirard. Outro sacrilégio? Já não tenho receios e reitero: Vive Le France!

domingo, 18 de abril de 2010

Se Para Crianças, Para Crianças Então


Ultimamente, quando uma animação é lançada, a pressuposição infantil da trama se restringe à essência tramática. Todos os ângulos e piadas do filme são voltados para os menos pimpolhos. “Como Treinar seu Dragão” foge às regras retomando regras mais primitivas, quando filme de criança era feito para criança.

O diretor Peter Hastings, que também dirigiu e produziu alguns capítulos do saudoso “Animaniacs”, embora não tenha conduzido muitas produções no meio animativo até hoje, soube, nessa obra, criar excelentes expressões e muitas sutilezas digitais, fazendo do longa uma experiência promovível.

Mas, já adianto de antemão ter graves dificuldades em parabenizar diretores de animação! Afinal, o mérito está na direção ou nos outros processos de criação? Honestamente, é um trabalho cinematográfico muito mais coletivo que qualquer outro. Não posso exatamente oferecer-lhe os louros!

O filme, enfim, não propõe uma fórmula inovadora de enredo, mas também não erra. Trata-se de duas espécies (vikings e dragões), inimigas há mil anos que, subitamente, se descobrem próximas em vários aspectos. Surge uma amizade proibida.

O resto é um despejado de clichês encaixados minuciosamente nas cenas mais adequadas, fazendo da película uma obra sensível e divertida. E para quem acha que clichês são o demônio do cinema americano, ouso defendê-lo aqui quando bem aproveitado. Funciona, oras!

Já a opção 3D não passa de uma opção. É que esses óculos ainda não me convenceram de outra que não a exclusiva incumbência anti-pirataria, porém, se com esse propósito, não justifica ingressos mais caros. Vale pela alegoria, aos que tendem aos caprichos tecnológicos. Nem melhor, nem pior.

Para quem acha que filme de criança pode ser agradável, mesmo aos adultos, eis a sugestão infalível. Ainda que em uma despretensiosa terça-feira qualquer. E às terças-feiras quaisquer, bom é quando tudo termina bem, e terminou!

terça-feira, 30 de março de 2010

Hiato com Pipoca


Um breve hiato cinematográfico. Uns pensarão que abandonei o interesse fílmico, outros que acabou a pipoca. A verdade é que cinco filmes passaram por mim nesse período. Quatro respeitáveis e um quinto que, bem, tinha pipoca! Não vou me prender à cronologia, pois, nem todos continuam em cartaz. Que se converta em dica de locadora!


E, além disso, aproveito para justificar (com um filme, é evidente) o motivo da minha suposta indisposição: “Onde vivem os monstros” me abateu catártico e extasiou serenamente. Já explico! Aproveito também e antecipo me dedicar em paralelo à experiência social do cinema, tal qual à beleza visual e sensorial dos frames sobre frames.

O tal “Onde vivem os monstros” era, desde quando pintou nos sites de download no ano passado, minha grande expectativa para 2010. Não baixei! Vi e revi o trailer. Recebi a trilha sonora de presente e cantarolei semanas as cantigas inventadas por “Karen O and the Kids”, uma banda artificial, montada para o filme pela vocalista dos “Yeah Yeah Yeahs” (além de ex do Spike Lee, diretor da obra) e um punhado de jovenzinhos eufóricos, embalados num coro folclórico e infantil. Delicioso.

Um filme para não se ver sozinho, desprezo essa oferta! Fiz questão de arrastar boa parte dos elementos mais essenciais à eternização do momento, fiz bem. Afinal é peça de entrelaçar os dedos às mãos da poltrona ao lado e se encantar com as expressões de monstrinhos mais que expressivos. A trilha complementa. O enredo é simples: Um garoto endiabrado foge de casa após um desentendimento familiar qualquer, e rema até a ilha que, naturalmente, abriga os tais monstros. Lá ele é eleito rei e passa a ditar o novo manual de conduta daquela comunidade. O resto é por conta. Uma obra sutil e indispensável, sublime na combinação áudio/visual.

Outro filme desse período: “A fada dos dentes”, dublado. Boa companhia, boas risadas, pipoca.

Aí surge “Tokio”, uma obra franco-japonesa (sendo isso possível ou não), de três media-metragens sobre a capital da capital do Sushi. O interesse nasceu durante o trailer em outro filme (não me lembro qual), e nasceu porque a direção de um dos medias era assinada por Michel Gondri, um francês que aprendi a gostar por influência declarada de uma amizade influente. Nessa exibição fui solo, coube. Descrever a película é inútil, cult. A agradável surpresa foi descobrir uma Tokio menos sintética e high tech e mais humana, verdadeiramente humana.

Então “Lembranças” veio como duvidoso convite virtual de alguém que não costuma deixar dúvidas. O aceite era inquestionável, valeria a pena ainda que Robert Pattinson não valesse. E vale! Uma experiência memorável para uma sexta-feira delicada, de uma fase turbulenta. O filme caminha tranquilo, sem maiores pretensões, linear. Vai assim até o fim, mas, por um discreto e poético sismo do roteiro (e no momento certo) vale o ingresso. Vale Pattinson. A noite dessa experiência ainda se estendeu, longa. Rendeu discussões calorosas, consolidou sentimentos e amansou feridas passadas, histórias paralelas. O enredo do filme? Drama. Basta.

Por último e, talvez, por coincidência, “A Ilha do Medo” foi minha última experiência, há menos de uma semana, muito bem acompanhado. Cabeças pensantes! Como em “Sangue Negro”, a trilha conduz o enredo com primor. Entra na cabeça como inseto ruidoso e bate nos tímpanos incessantemente. Enlouquece. A obra, a propósito, lida exatamente com a loucura, em um sanatório americano no pós-guerra. A direção é do Scorsese, fruto maduro de uma velha proposta a uma nova Hollywood, autoral. Erra pouco. Mas, se pecou em “A Ilha do Medo”, foi pelo excesso de explicações, evidências. Uma boa dose de dúvidas e auto-conclusões não fariam mal algum.

Daí me desliguei do que está em cartaz ou entrará em cartaz. Espero agora por Alice, Burton, Depp. E quem não? Ao mesmo tempo, pareço restabelecido para as críticas. E, como artifício facilitador, desde sábado (e por mais um ano) readquiri o direito de frequentar duas vezes mais o cinema: Estudante. Portanto, passivo, aceito convites. Em dobro!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Chuva de Sangue


Sangue. Muito sangue. Litros e litros de secreção espessa e vermelha. “Ninja assassino” extrapolou os limites da violência para redefinir os filmes de artes marciais. Cabeças decepadas, braços e pernas arrancados e vísceras mutiladas, tudo com a delicadeza de espadas e shurikens afiadíssimas, como se deslizasse sobre a superfície de uma manteiga em temperatura ambiente.

O filme de James McTeigue é um ode à violência explícita e é preciso saber deste fator e se interessar pela causa, pois, nesse quesito a película é primorosa. Noutros, peca.

Trata-se de uma história de vingança (e violência flerta com vingança há séculos) permeada por um discreto amor interracial que não desenvolve. A construção do enredo soa apressada e ignora alguns detalhes de contextualização, alguns personagens atravessam sem propósito pela história e, a primeira cena, embora magnífica aos amantes da brutalidade exacerbada, apresenta sinais de falta de coesão na medida em que o filme se desenrola.

O personagem principal é Raizo, interpretado por um jovem artista poliperformático, o coreano Rain (ou Bi, como parece que dizem por lá). O talentoso garoto é, além de ator, também dançarino, modelo, empresário e um pop star fenômeno em seu país natal. Segura muito bem a caracterização do protagonista e, felizmente, não se veste de ninja rancoroso para cantar. Sem deméritos, mas ninja que faz cara de mau, não canta!

Bem, voltemos ao início: O que me atraiu à sala de cinema neste caso, confesso, foi a possibilidade de um novo estilo ao encalacrado Kung Fu. Pancadaria, na verdade, não é minha área. Costumo dizer que não sou macho para o cinema. Filmes de guerra, terror e artes marciais estão mais para o meu irmão, macho mesmo! Aliás, foi ele, minha indefectível companhia nessa exibição.

Porém, ainda que distante das minhas preferências ousei investir e não há arrependimento. Compactuo com meu irmão (um grande conhecedor) ao atendimento à proposta brutal. Repito que é preciso saber que o filme vai oferecer mais ação que razão. Uma apresentação mais aos olhos que ao intelecto.

E, se cabe informação adicional, James McTeigue é o diretor de “V de Vingança”, um filme que não atingiu minhas expectativas. Mas, bom nisso de promover expectativas em mim, Mr James dirigirá (segundo descobri nesse instante pelo imdb) “The Raven”, conto clássico de Poe. Já me garantiu!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Pipoca e Pães de Queijo na Capital do Não Carnaval – Dois filmes em uma crítica


Foi um carnaval cultural esse. Como eu procurei encontrar e como o encontrei à minha procura. Metropolitano. Sem vestígios da folia tradicional e das bundas purpurinadas da TV. Estive em Belo Horizonte e adicionei uma nova capital ao meu currículo geográfico. Prós e contras. Não vim falar dela. Assisti a três filmes no cinema: “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”, de Chris Columbus (não vim falar dele), “À Procura de Eric”, de Ken Loach e “Ninho Vazio”, de Daniel Burman (Vim falar deles!). Para o último, confesso (estou sempre confessando, não?), será uma crítica clandestina, pois, já havia visto. Mas, como não no cinema, vetei-me ao direito de citá-lo antes.

Comecemos pelo “Eric”. Que filme humano! Tantos sentimentos puramente nosso, expostos e destrinchados quadro a quadro. O filme diz respeito ao próprio Eric, um carteiro inglês em processo depressivo-destrutivo que cria os filhos que não são dele e se enche de culpa pelo fracasso do seu primeiro casamento (os enteados em questão são do segundo). Desistente das alegrias e satisfações da vida, ele entrega a seu messias (pai, filho e espírito santo) a última oportunidade de não tirar o suicídio para dançar. Entretanto o peculiar messias é seu homônimo Eric Cantona, o controverso ex-atacante do Manchester United. Admito que, mesmo sendo um boleiro entendido, desconhecia a existência de São Eric.

O filme evoca a comédia. No trailer, no cartaz e na sinopse. Eric (o Cantona) surge no filme, dentro do quarto de Eric (o carteiro) depois de uma sessão particular de maconha (surrupiada indiscretamente do mais problemático dos enteados). Mas não se engane, as quase duas horas que se seguem vão muito além do escracho absurdo que propõe. Transpira o mais astuto e homogêneo sentimento inglês de valorização a amizade, às fraquezas humanas e a impotência diante de problemas maiores. Não dispensa a comédia, muito pelo contrário, é indispensável rir. Mas um riso franco e complacente. Sem desdém pelos apuros que passa nosso anti-herói. As situações vão se direcionando a um surreal limítrofe e, dentro do contexto (singelamente) absurdista, apresenta um desfecho satisfatório e revigorante. Mas “À Procura de Eric” não chegou por acaso nos meus sentidos. Invadiu a Setlist de 2009 no meio do ano, na ocasião da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas, adversidades da época o fizeram passar batido.

“Passou Batido”, aliás, é o nome da mostra que atirou “Eric” no meu colo, junto de “Ninho Vazio”. Trata-se de um invento de qualquer alma santa mineira que ocupou a sala do Palácio das Artes (vale a pena!) apresentando, no mês todo de fevereiro, cinco obras importantes do ano anterior. Foi uma maratona, um seguido do outro. Mas apenas estes dois!

O “Ninho Vazio” eu havia assistido há muito pouco, por muito acaso, numa situação muito clandestina de um download muito providencial em um desses sites de muitos filmes em torrent. Na época, me interessei pelo trailer e o download estava lá, me convidando como aqueles bolos de desenho animado convidam os dietistas (Me coma! Me coma!). Não sabia nada a respeito do filme e menos ainda, que algum tempo depois poderia vê-lo em telas dignas.

A propósito, peço licença para esclarecer minhas atividades ilícitas: Tenho uma política peculiar à pirataria pessoal (e jamais transcendo a pessoal), não baixo filmes que tenho a possibilidade de ver no cinema. O cinema está em primeiro plano. Sempre! É claro que essa política é furada dada a minha compulsão. Já baixei (sem querer, juro!) pelo menos três filmes que entraram em cartaz. Enfim.

O “Ninho”, particularmente, era um desses que eu gostaria muito de ter tido a honra. E a mostra “Passou Batido” me ofereceu ele a R$5,00. Um presente incalculável! É uma história daquelas que tocam a parte mais funda do coração, aquelas difíceis de tocar. Um “Peixe Grande” latino-americano. Quer dizer, sem comparações, não tratam nem o mesmo tema (diretamente), mas a sugestão do Tim Burton foi uma das recentes obras a me tocar como o “Ninho” tocou.

Leonardo, o protagonista, é um romancista reconhecido moderadamente. Martha, sua esposa, uma mãe que abriu mão da vida. Tudo pela família, carreira do marido e filhos. Têm juntos três filhos e, a trama começa quando Julia, a única filha mulher, além de adolescente e mais velha entre os três, passa a primeira noite fora de casa. Daí para frente, a beleza pela sutileza que nos é delicadamente despejada pelos personagens, poucas escolas como a da Argentina oferecem. Uma obra prima que eu não sinto sequer confiança em descrever com mais detalhes por acabar, involuntariamente, relatando mais que devo. Vale à pena. Simplesmente vale à pena.

Dois mil e dez me deu um carnaval memorável, para repor energias e reacender inspirações. Belo Horizonte me acolheu distanciando-me providencialmente da famigerada festa de inauguração ao ano comercial (hipocrisia). E se meu papel é sugerir, não hesito em negar apenas “Percy Jackson” nessa maratona. Não por ser necessariamente ruim, mas dispensável, juvenil. Talvez pela cópia ser dublada (não me atrai). Não sei, os outros dois o sobrepuseram, talvez seja só isso.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um Irã descomplicado


Foi de propósito. Foi sim! Há muito que tento me introduzir no cinema oriental alternativo (título arbitrariamente meu). Irã e Índia são países referência na produção cinematográfica que, até onde sei se refere à quantidade, mas, até onde gostaria de saber, à diversidade e qualidade. Confesso: nunca contemplei uma película qualquer de um desses países (desconsidero o “Quem quer ser um milionário”); confesso embaraçado: tenho preconceitos com o cinema oriental; confesso dissimulado: um preconceitozinho de nada; confesso resoluto: me sinto em crise confessional!

Pois bem, o que acontece é que aconteceu há muito pouco (e pouco mesmo, mal deu tempo de fazer a digestão) a experiência prima! Minha viagem sensorial ao litoral iraniano se deu no terceiro dia do mês de fevereiro do ano de dois mil e dez. É importante cravar nos autos porque trata-se de uma experiência relevante, que se mostrou proveitosa e, mais que isso, rompeu parte do preconceito (zinho) com o oriente (é o tipo de fantasia deles que não me desce, se cabe aqui argumentos sem fundamento).

O filme em questão é “À procura de Elly”. Descobri sua existência numa despretensiosa busca por atividades de meio de semana. Fui direto às salas alternativas porque estava justamente buscando algo diferente. Quando vi a nacionalidade do “Elly”, desisti da sinopse imediatamente e me dediquei aos horários de exibição. Por se tratar de meio de semana, é preciso revolucionar os horários e encaixar, entre uma atividade e outra, a dedicação cinematográfica. Fui. Naturalmente cheguei no horário limite, depois da sessão de trailers. Uma lástima irreparável! E sim, isso tudo é apenas para dizer que sou um perfeito consumidor de trailers.

Nos primeiros minutos, lembrei da sinopse e tentei não me arrepender por ter a esnobado. Demorei um bocado para me situar com os personagens apresentados. Entendi, depois, fazer parte da proposta. A dinâmica do filme, nesse caso (e isso vai para os que também desconhecem o “cinema oriental alternativo”), é bastante aproximada da tradicional escola americana, muito fácil de acompanhar. Digo porque, do alto do meu preconceito, imaginava ou um filme transcendental com muitas referências culturais do desconhecido (a mim) mundo oriental ou, imaginava um filme transcendental com muitas referências culturais do desconhecido (a mim) mundo oriental. Sim, imaginava isso e ponto.

Na verdade trata-se de uma história de mistério. A Elly literalmente some ao alcance dos olhos de todos e o mote é saber onde ela foi parar. Começa com um grupo de amigos da época da universidade que se encontram para uma viagem de fim de semana e, sem que nos sejam devidamente apresentados, partem juntos para uma casa na praia. Só depois de alojados que nós, espectadores, começamos a entender quem é quem ali. Aliás, esse desapego à construção imediata do personagem é bastante providencial e foi o que mais se distanciou da estética padronizada dos meus típicos filmes ocidentais. Enquanto o episódio do sumiço não acontece (se dá logo depois de um afogamento), o filme é bastante morno. Depois que a trama começa a se construir, aliás muito bem engendrada, a tensão aparece e conserva os olhos atentos na tela enquanto a cabeça sugere mil hipóteses.

Eu bem que gostaria de oferecer as sensações que tive ao longo da trama, mas não pretendo influenciar as sensações alheias. O que me comprometo a contar é que o filme é muito bem articulado, tem boas atuações, não fica nada distante do padrão Sigfield de cinema, convence e, embora não deva ser a grande obra iraniana (tampouco oriental), vale como introdução. Como assimilação dos dois mundos cinematográficos. E que venha o Irã 3D.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Day-Lewis em: O garanhão Italiano



Começa uma covardia, como pedir ao papa que fale sobre o aborto. Não gosto de musicais. Quando me convidaram para ver Nine de Rob Marshall, aceitei no escuro, o convite era idôneo. O elenco feminino de peso anulou o interesse pela sinopse e, o protagonista masculino, bem, um elenco por si só.

Para ser breve em descrições, trate-se de um diretor de cinema em crise após uma sucessão de fracassos, agora consumido pela pressão da nova obra. Entregue a mil amantes, Daniel Day-Lewis é o maestro Contini que, mesmo casado com sua antiga musa Luiza (a Piaf, Marion Cotillard), passeia pelos corpos de tantas outras divas. Um perfeito garanhão italiano. Penélope Cruz é, mais uma vez, a Femme Fatale dissimulada e cínica. Mas agora com ares de loba. Nicole Kidman é a nova musa de Contini, Kate Hudson a jornalista de moda que acompanha de perto a carreira do ídolo e, Fergie, canta. Há também Sophia Loren que, com a simples obrigação de ser a instituição italiana do filme, poderia facilmente ser substituída por Zambrotta ou Buffon. A relevância do papel e a atuação seriam compatíveis.

As músicas, chupadas fielmente da peça original na Broadway, são todas insossas e de rimas previsíveis. Devem causar um impacto positivo no palco. Na tela de cinema, simplesmente não. Exceto pelas performances da Marion, duas vezes, ambas carregadas de emoção, nenhuma canção se salva. Lewis é discreto, não deve pintar na telinha do Oscar esse ano, não com o “italian stallion” de Nine. Mas ainda me surpreende a facilidade com que qualquer pestana seja capaz de convertê-lo em uma pessoa completamente diferente. Aqui ele atua de cara limpa quase todo o filme e, me comprou como italiano, mas, se torna outro homem quando de barba e chapéu, quase um húngaro. Além do texano exato em Sangue Negro.

Nine é um musical, pessoas saem pelo mundo cantando e dançando, contagiam meia cidade em coreografias mirabolantes e milimetricamente cadenciadas, difícil dar coisa boa. No caso de Nine, não dá. Um filme onde o elenco não sustenta a falta de roteiro; onde a falta de roteiro (talvez proposital, há um sentido nisso) cede à pieguice e onde a última cena, linda, confunde pela beleza em sua construção com o alívio de fim.